O projeto de Lei que corta pagamento automático de complementação de carga horária para professores da rede estadual deve parar na Justiça. O Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Goiás (Sintego) tenta barrar a aprovação da matéria, que está apta para votação definitiva na sessão de hoje da Assembleia Legislativa, mas já avalia entrar com ação judicial.O projeto foi enviado pelo governo em abril e já foi aprovado em primeira votação. Ele altera o Estatuto e o Plano de Cargos e Vencimentos do Pessoal do Magistério, revogando a possibilidade de os professores da rede estadual darem aulas complementares sem passar por processo seletivo e, consequentemente, veda o pagamento das horas extras sobre elas.São consideradas aulas complementares aquelas que fazem o professor extrapolar sua jornada de trabalho — de 20, 30 ou 40 horas semanais —, não incidindo sobre os pagamentos o desconto previdenciário. Na justificativa do projeto, o governo diz que a lei é necessária justamente porque existe uma “massiva quantidade de ações judiciais com decisões desfavoráveis ao Estado” relacionadas ao assunto, e sem possibilidade de reverter a jurisprudência.A proposta do governo para não faltar professores, caso o projeto seja aprovado, é realizar a contratação temporária de docentes, visto que a legislação federal criada em função da Covid-19 proíbe a realização de concursos públicos.Isso deve ocorrer via processo seletivo, do qual poderão participar também os próprios professores efetivos que perderão parte de seus vencimentos atuais por conta do corte das aulas complementares. A remuneração dos temporários — previsão de 1.600, segundo a Secretaria estadual de Educação — será por hora-aula, com regulamentação a ser feita via decreto.A mudança deve valer a partir de janeiro de 2022 e, de acordo com o governo, o Estado deve economizar R$ 2,9 milhões por mês com a modificação na lei — R$ 35,2 milhões por ano.Tesoureira do Sintego, Iêda Leal diz que o vínculo temporário traz desvalorização aos professores, porque “não segue o plano de carreira dos trabalhadores em educação”. “Isso significa que o contratante vai colocar qualquer valor às horas trabalhadas. É como se quisessem passar a perna na legislação brasileira no que diz respeito ao trabalhador.”Segundo ela, esse deve ser o argumento do Sintego em eventual ação na Justiça. “Cria-se uma regra para os professores efetivos continuarem trabalhando, mas a penalização será para nós trabalhadores. Descola do plano de carreira, do piso nacional (de professores). O que se quer fazer é tirar o vínculo. Não é momento de mexer nessas coisas.”Hora ExtraAo POPULAR, a secretária de Educação, Fátima Gavioli, diz que o projeto visa dar garantias para que os professores continuem recebendo a complementação. Ela justifica que a matéria foi apresentada porque um grupo de docentes foi à Justiça para receber horas extras sobre as aulas complementares.Ela explica que, pelas regras atuais, um professor efetivo com 40 horas de carga horária semanal poderia automaticamente, isto é, sem processo seletivo, pegar mais 20 horas de aulas complementares, caso houvesse necessidade, passando a receber mais. “Essa prática existe há mais de dez anos. Aqui era automático, mesmo que em outros Estados isso se dê via processo seletivo, e ninguém reclamava. Até um grupo de professores ir à Justiça solicitando pagamento de horas extras sobre as aulas complementares. E ganhou.”Fátima relata que, diante do novo cenário, veio a necessidade de modificar a lei. Ela exemplifica: um professor 40 horas que ganha R$ 4 mil, e pega mais 20 horas de aulas complementares, ganharia mais R$ 2 mil. Com o pedido de horas extras sobre as 20 horas, ganharia mais R$ 1 mil e pouco. “Nenhum patrão pode pagar hora extra sem extrema necessidade. Não posso falir a folha (de pagamento) para resolver um problema que eles mesmos foram buscar.”Segundo a secretária, caso o projeto seja aprovado nesta semana, o processo seletivo com participação dos professores efetivos será aberto em, no máximo, 15 dias. Caso não passe, o processo será para contratação de docentes sem vínculo efetivo.Deputados de oposição conseguiram, até ontem, barrar a votação definitiva do projeto. Isso ocorre em um cenário de insatisfação da base governista com o governador Ronaldo Caiado (DEM) (leia abaixo) — a matéria volta à pauta hoje, porém, um dia após reunião de parlamentares com Caiado.Ontem, deputados oposicionistas usaram a tribuna para criticar tanto o projeto quanto a ajuda de custo de R$ 100 para professores, criada via decreto de Caiado publicado no Diário Oficial do Estado na segunda-feira (17). A ajuda de custo será dada por até dois exercícios financeiros.Humberto Teófilo (PSL) afirmou que os “professores estão pedindo ‘pelo amor de Deus’ para rejeitar o projeto” e que o governador “novamente sacrifica os professores, dando fim às horas complementares”. Foi corroborado por Major Araújo, também do PSL.Líder do governo, Bruno Peixoto (MDB) rebateu afirmando que “a educação de Goiás tem dado exemplo a todo o País”, em referência ao 1º lugar no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), mas informando que o Estado não tem recursos para pagar as horas extras requeridas pelos professores.