“Se sair do controle, eu volto a travar tudo”, diz o governador Ronaldo Caiado (DEM) ao falar da flexibilização do decreto de isolamento social no combate ao coronavírus, a partir de segunda-feira (20). Ele afirma que a melhoria da estrutura hospitalar e as medidas adotadas nos últimos 30 dias sustentam o afrouxamento. Caiado também comentou a troca no Ministério da Saúde, diz que perdeu 7 quilos e que dorme pouco, mas que não sente cansaço. “A disputa por salvar o maior número de pessoas é a disputa que me move.”

O sr. disse que Luiz Henrique Mandetta será consultor do DEM nacional. Então ele não vem mesmo para Goiás?

O que eu não queria é que ele fosse para casa, considerando a competência e o know how dele. Prestar esse assessoramento ao diretório nacional é tão positivo quanto a minha proposta (de ser secretário da Saúde).

E o que acha do novo ministro (Nelson Teich)?

Nunca vi. Estou sabendo dele agora. Não posso dizer.

Para muitos, aquela entrevista no Palácio das Esmeraldas foi um movimento político e de provocação do ministro Mandetta. O que acha?

Ele não falou nada de mais, não acrescentou nada além do que já havia dito. Não houve nada impactante. Foi até morna porque afinal era domingo de Páscoa. Todos sabem que a saída foi pela falta de sintonia, de convergência. Aí fica difícil trabalhar. Ele já estava fragilizado por isso. Agora é torcer para que continuem o trabalho dele. É o que eu disse, missão cumprida. Mandetta fez algo inédito. O Ministério da Saúde nunca teve organicidade, uma estrutura sistêmica, em que todos falassem e interagissem. O cara que conseguiu isso foi o Mandetta. E ele não chegou ao ministério por indicação partidária ou de A ou B. Ele teve o apoio de todas as áreas, dos profissionais da saúde. O que ele entregou ao Brasil foi muito importante. Tem uma ou outra cidade com situação mais grave, mas não está faltando leito. Estamos dando a chance de todo cidadão se tratar.

A Ludmilla Hajjar foi cotada para o Ministério. Ela é muito próxima ao sr. Daria certo com o presidente Bolsonaro?

Não sei (risos). Falei com ela hoje (ontem) e ela que me disse do novo ministro, do perfil dele.

Sobre o novo decreto de isolamento social, o sr. vai só fazer orientações aos prefeitos?

Pela decisão do Supremo, o meu decreto vai ser muito mais orientador. Com essa decisão, não haverá a mesma posição impositiva do primeiro em assuntos municipais. Foi bom o Supremo decidir isso. Não tem como você fazer um texto só que atenda os 246 municípios. Vai dar ao prefeito a autonomia para estabelecer seu plano de contingência e monitorar a tendência de contaminação. Não vai poder é ser irresponsável e depois sair correndo para ocupar leitos de quem foi responsável.

Não é justamente por isso que o Estado tem mais condições de centralizar esse monitoramento e definir as medidas?

Mas o Supremo julgou assim, uai. Até então era. No momento em que um prefeito ou outro descumpria o decreto, eu pegava o telefone, conversava, e tentava convencê-los. Agora o prefeito terá a responsabilidade de definir as medidas, até de liberar tudo. O que vai ser de responsabilidade do Estado? Os colégios estaduais serão uma decisão só minha. Também grandes indústrias. E eu não vou fazer nada que não seja embasado em estudos técnicos, da UFG, do Instituto Mauro Borges.

Então o decreto vai ser específico sobre as áreas de atribuição do Estado?

Não, eu vou continuar tratando de tudo. Vou estabelecer limites e interdições em algumas situações. Só não vou ter condições de responder por mudanças que venham a ocorrer nos municípios. O decreto vai ser acompanhado de dezenas de laudas com dados técnicos e recomendações. Mas agora sabendo que a decisão será compartilhada. O prefeito que não aceitar e quiser ampliar ou restringir, pode, considerando o nível de contaminação. É uma curva com a qual o prefeito vai ter de ter juízo. Ele terá capacidade de absorver? Se não tiver, vai responder depois ao Ministério Público e à Justiça.

O decreto vai orientar o retorno de cerca de 70% das atividades econômicas? Vai abrir a maior parte do comércio?

Umas coisas sim e outras não. Eu não fiz essa mensuração de 70%. E não vou detalhar porque não concluí ainda. Só vou terminar domingo.

Considerando que Goiás foi um dos primeiros Estados a adotar as medidas de isolamento, se houver reabertura...

Não foi um dos primeiros. Foi o primeiro.

Distrito Federal anunciou algumas medidas antes.

Foram medidas fatiadas. Fomos o primeiro do País a fazer um decreto total.

Então diante disso, e considerando que Mandetta disse que o pico será em maio ou junho, não pode ter sido em vão o esforço do primeiro mês, se reabrir 70%? Não coloca tudo a perder?

Não, de forma alguma. Em um mês nós avançamos bastante na estrutura para atender os casos. Tendo um maior número de leitos, eu posso começar a flexibilizar. Agora um município acha que deve abrir tudo e de repente estoura. Não é apenas o governador. Agora ele vai ter de responder. Eu vou seguir monitorando a garantia de leitos. Se a curva mostrar um crescimento exponencial, trava tudo de novo. É algo que tem de ir calibrando de acordo com os dados. Hoje pelo mapeamento feito pela telefonia celular, você identifica onde se está extrapolando. Goiânia está extrapolando. Não tem mais o nível necessário de isolamento social. Goiânia corre o risco amanhã de precisar de medidas mais rígidas.

Qual é o nível de Goiânia?

O importante é que o crescimento do número de casos em Goiânia é de 20 a 30 por dia. Nada mais elucidativo do que aquele vídeo da vitória-régia dentro da lagoa (referência a vídeo divulgado nas redes sociais para explicar crescimento exponencial do coronavírus). Enquanto há um crescimento controlado, você mantém a lagoa sem ocupação total por vitória-régia. Se houver crescimento exponencial, não adianta mais, já tomou a lagoa. Nós tivemos o maior índice de isolamento social do País, chegamos a 66,4%. É lógico que estou me beneficiando dele até agora. Quando flexibilizar, os números vão crescer. Se Goiânia chegar a 100 casos por dia, acende o sinal vermelho completo e para tudo. Vamos retroagir de novo. Se sair do controle, eu torno a baixar o decreto com o isolamento.

Em coletiva ontem (anteontem), integrantes do Ministério da Saúde falaram de cansaço. O sr. tem esse sentimento diante das pressões?

Eu? Eu estou é elétrico. Estou ligado no 220.

Não cansa brigar com empresários, prefeitos, o presidente Bolsonaro e parte da população contrária à quarentena?

Estou querendo tanto ter um resultado que seja referência para o Brasil inteiro... A disputa por salvar o maior número de pessoas é a disputa que me move. Quero ser o primeiro. Para ter ideia, eu pesava 92 quilos e estou com 85. Perdi 7 quilos. Não estou dormindo direito.

Terá resistência para baixar um novo decreto de isolamento se der errado, como disse?

Eu travo tudo. Vou pra cima. Tenho total tranquilidade no que estou fazendo porque não estou agredindo minha consciência em nada. Zero. Eu não vou perder o controle. Não vou. Calibrar é o que se tem de fazer na vida. Não posso aprofundar muito as medidas porque as pessoas também não vão cumprir. E não posso flexibilizar tanto a ponto de criar situações como de Manaus.

Então sua posição pessoal é de que estava na hora mesmo de flexibilizar?

A quantidade de leitos que tenho hoje nos dá condições de ir para um estágio acima. É preciso entender que o ideal de uma virose é alcançar 50% de contaminação da população. Se alcançar em um mês, aí vai morrer todo mundo. Se eu tiver em dois, três meses, aí vamos controlando. Não precisamos de fato ter a mesma rigidez necessária em Goiânia e no Entorno do Distrito Federal em Aparecida de Goiânia, por exemplo, onde temos menos casos. Esse mapeamento de cidade em cidade é relevante. E o decreto vai dizer que as medidas podem ser alteradas a qualquer momento.

Se a situação de Goiânia é mais delicada, então é improvável abrir a 44.

Com ônibus de excursão, trazendo comitiva de fora, não. Vamos discutir um sistema que se assemelha ao que a Secretaria de Agricultura fez com as feiras. Vamos definir se há condições com segurança. Eu inclusive recebi um ofício que me sensibilizou profundamente, da associação de bares e restaurantes, dizendo que não querem abrir nos próximos 15 dias. Preferem continuar só no delivery mesmo. Merecem aplausos. São capazes de entender que não é fácil fazer um controle dentro de restaurantes e bares. É um problema a menos, pelo amor de Deus.