O embate na Câmara se dá entre o bloco apoiado por Maia e o grupo de Lira, que conta com a bênção de Bolsonaro.

Do lado de Maia, os seis primeiros partidos a embarcar na coalizão (PSL, MDB, PSDB, DEM, Cidadania e PV) ganharam, na sexta-feira (18), o reforço da oposição. PT, PSB, PDT, PC do B e Rede se somaram ao grupo, e o PSOL ainda estuda aderir, mesmo com candidatura própria.

A estratégia de Maia para atrair partidos de espectros políticos tão distantes --como PSL e PT-- foi construir um bloco centrado em uma mesma ideia: barrar a ameaça de uma Câmara servil ao Palácio do Planalto.

As legendas concordaram em apoiar essa diretriz comum, mesmo com acentuadas divergências entre si, em especial na pauta econômica. Os dois candidatos de Maia, o deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) e o presidente do MDB, Baleia Rossi (SP), representam a continuidade da veia mais liberal na economia personificada pelo atual presidente --e alinhada com o ministro Paulo Guedes.

A articulação para barrar pautas controversas seria semelhante à que Maia fez para desidratar o pacote anticrime do ex-ministro Sergio Moro (Justiça) e esvaziar o projeto de porte e posse de armas enviado por Bolsonaro.

Por outro lado, Maia associa uma eventual vitória de Lira a subserviência ao Planalto e a uma inclinação maior a votar projetos como flexibilização de porte e posse de armas ou temas envolvendo minorias.

"Ele [Bolsonaro] não ter a pauta de costumes na Câmara reduz esse ambiente polarizado que, do meu ponto de vista, na opinião dele, é o que constrói a eleição. Construiu a outra [eleição, de 2018], vai construir a próxima", ressaltou no dia 16.

"Ele não ter um debate mais intenso sobre meio ambiente, sobre armas, sobre minorias, na Câmara reduz o espaço de um debate nacional sobre costumes", disse.

Nas redes sociais, Lira expressa apoio a pautas em favor das mulheres e defende maior participação feminina na política. Ao lançar a candidatura, afirmou que desejava trabalhar com líderes partidários "para que a composição da Mesa Diretora tenha uma mulher num cargo de direção nessa casa".

No passado, Lira já se manifestou sobre a pauta de costumes de Bolsonaro. Em 27 de junho de 2019, usou uma rede social para criticá-la.

"O governo precisa entrar em sintonia com a real necessidade da população e deixar de lado a pauta de costumes e polêmicas que não contribuem e não apontam para a construção de um futuro melhor ao nosso país", escreveu.

Nos bastidores, parlamentares e especialistas veem risco de que, para agradar ao Planalto, Lira tenha que ceder e pautar os temas controversos.

Na avaliação de Leonardo Martins Barbosa, cientista político e pesquisador do OLB (Observatório do Legislativo Brasileiro), a pauta de costumes é a agenda do governo, e a candidatura de Bolsonaro é a de Lira.

"Então, independentemente das preferências do Lira, é claro que isso vai influenciar na maneira como ele vai conduzir os trabalhos, se vier a vencer. Claramente o Arthur Lira vai ter uma dependência maior do governo do que outros candidatos", afirma.

"Então, com uma pauta mais conservadora, mais alinhada ao governo, certamente uma candidatura do Lira parece menos aberta a compromissos com a esquerda", diz Barbosa.

Na economia, o líder do centrão já vem moldando o discurso para expressar um alinhamento maior com a política de Guedes, embora, no passado, já tenha manifestado apoio a uma reforma da Previdência com flexibilizações indesejadas pelo ministro da Economia --que foi obrigado a engolir as alterações para aprovar as mudanças na aposentadoria.

"Mais uma vitória. Além da retirada do BPC [benefício pago a idosos carentes] e dos trabalhadores rurais do texto principal, avançamos nas alterações da reforma da Previdência que afetavam nossos professores", comemorou Lira, em julho do ano passado.

Alguns de seus pares veem risco de que ele seja pressionado a ceder à corrente econômica do ministro Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional), que já defendeu publicamente o aumento do gasto público para impulsionar a economia brasileira.

Bolsonaro já sugeriu flexibilizar o teto, fundamental para o controle das contas públicas, mas, ante intranquilidade do mercado, o discurso mudou.