"Eles (o secretariado) entenderam que os novos porta-vozes do prefeito apresentavam o novo comando da Prefeitura para desenvolver um projeto administrativo desconhecido da maioria deles"

A anunciada separação de corpos entre o MDB e a gestão de Rogério Cruz (Republicanos), prevista para acontecer na próxima semana, ocorreu simbolicamente em dois eventos recentes, a sessão da Câmara de Goiânia e a reunião do secretariado, ambas na quarta-feira (30). Os vereadores pareciam crianças em parque de diversão, felizes com os brinquedinhos novos, os cargos na Prefeitura de Goiânia, dois deles de primeiro escalão, a presidência da Agência Municipal de Meio Ambiente (Amma) e a Secretaria de Educação.

O primeiro foi destinado a Luan Deodato Machado Alves, filho do vereador Clécio Alves (MDB), e o segundo ao vereador Wellington Bessa (DC), que, de quebra, ainda garantiu a posse do suplente de seu partido, Rafael da Saúde. Clécio Alves estava extasiado com a nomeação de seu “filho de ouro” à Amma, por ele ter “três cursos superiores (direito, administração de empresas, marketing)” e estar no “quinto período de engenharia”. Luan fez carreira em cargos comissionados na Prefeitura na esteira dos mais de 24 anos de mandato do pai, nas gestões dos prefeitos Paulo Garcia (PT), Iris Rezende (MDB), galgando o último degrau, o primeiro escalão, com Rogério.

Vários vereadores se manifestaram na sessão em apoio à nomeação, chamando de “preconceito” às críticas ao nepotismo, lembrando, a nomeação de parentes até terceiro grau em cargos de confiança. O novato Henrique Alves (MDB), ex-secretário na gestão de Iris Rezende, celebrou a presença na sessão da superintendente de Planejamento Urbano da Secretaria de Planejamento, Carolina Alves, “que, por coincidência é minha irmã”, disse, como se houvesse coincidência em indicações políticas.

As questões éticas não fizeram parte das preocupações dos alegres vereadores ocupados em celebrar o poder que conquistaram na Prefeitura e a “parceria” com o prefeito. Calçado no Legislativo, Rogério deu o segundo passo nesse ritual de separação na reunião com o secretariado. A equipe esperava que Rogério fosse explicar os quatro decretos publicados de surpresa na noite anterior, cancelando os contratos de asfaltamento assinados a partir de 2017 e paralisando todas as obras de recapeamento em andamento, e criando três comitês, curiosamente nenhum com a participação do prefeito, para decidir sobre despesas com custeio, pessoal e investimento, e sob a coordenação de Arthur Bernardes de Miranda, o secretário de Governo indicado pela direção nacional do Republicanos.

Para surpresa da maioria dos presentes, o prefeito não falou, pois a reunião era para uma palestra do consultor Geraldo Lourenço, ex-secretário de Governo do Distrito Federal na gestão do então governador Rogério Rosso (PSD), mesmo grupo político de Bernardes. A um público incrédulo, ele palestrou por quase duas horas sobre conceitos de teoria geral do Estado e sobre ideias noventistas de governança, para justificar os decretos que reduziram poderes dos secretários para concentrá-los nos comitês e, em última instância, no secretário de Governo.

Se a intenção era pregar a inovação da governança municipal, ou como disse o prefeito em artigo publicado na quinta-feira (1º) neste jornal, e defender o exercício da “lógica de ouvir, dialogar e decidir”, a mensagem que a equipe recebeu foi diferente. Eles entenderam que os novos porta-vozes do prefeito apresentavam o novo comando da Prefeitura para desenvolver um projeto administrativo desconhecido da maioria deles. Boa parte deles entendeu ainda que o prefeito e seus aliados recém-chegados à cidade se sentem confortáveis, inclusive pela “parceria” com a Câmara, a assumir o leme da gestão, daí a publicação dos decretos sem diálogo com a equipe e com o MDB.

Agora o partido e os secretários, incluindo os que não são filiados, mas que assumiram cargos por conta da vitória de Maguito Vilela, avaliam para anunciar, possivelmente nesta segunda-feira, se embarcam na viagem da “gestão Rogério Cruz”, para usar as palavras do prefeito, ou se desembarcam dessa nave guiada por tripulantes desconhecidos para um destino ignorado. Dificilmente o MDB permanecerá nesta aventura como partido – independentemente de seus vereadores que estão em festa com seus indicados na Prefeitura –, pois não sabe mais quem manda no Paço Municipal.