Há método no processo de enfraquecimento, adoecimento e derrubada de um governo democrático. O ataque ao Capitólio, sede do Congresso Nacional dos Estados Unidos, nesta quarta-feira (6), em Washington, durante a sessão que confirmaria a vitória de Joe Biden Jr. à presidência da República, foi uma tentativa de golpe final em um processo que começou antes mesmo da eleição do presidente Donald Trump, o líder da “insurreição”, para usar uma expressão de Biden e do senador republicano Mitch McConnel.

O livro M, O Filho do Século (Intrínseca), primeiro volume da trilogia da biografia romanceada de Benito Mussolini, de Antonio Scurati, esmiúça, meticulosamente, as condições que propiciaram o surgimento do fascismo na Itália na década de 1920 e como ele aproveitou-se delas para atacar e parasitar as instituições do Estado. O livro tornou-se atual com o avanço do populismo de direita nos Estados Unidos, com a eleição de Trump em 2016, na Europa (Hungria, Polônia) e no Brasil, com a vitória do presidente Jair Bolsonaro, em 2018.

Entre os procedimentos criados por Mussolini estão a formação de esquadras armadas (ou milícias) para trocar a ação política por métodos de violência (“Uma bomba vale mais que 100 comícios”, escreve Scurati); alianças com setores econômicos (indústria, bancos, comércio e produtores rurais) e com policiais de todas as forças (guardas reais, carabineiros, guardas fiscais) temerosos com o avanço do socialismo (que era real na época, é bom frisar); a conquista de jovens sem futuro em um país em crise pós-Primeira Guerra Mundial; a sustentação de um jornal como meio de propaganda política (Il Popolo d’Italia); e o blefe. O fato perde relevância e passa a valer a versão mais conveniente (“As palavras – de novo, as palavras – prevalecem sobre a realidade, mantendo esta à margem”).

Por esse impreciso resumo, afinal o livro tem mais de 800 páginas, entende-se que o estímulo a armar a população brasileira por Bolsonaro e a defesa de grupos extremistas por Trump, quer dizer, apoio à violência como método de ação política; os acordos com a elite econômica, sob a falsa alegação de evitar a volta do socialismo; o uso das redes sociais como meios de propaganda política, o blefe (fake news) e o ataque orquestrado ao jornalismo profissional e a seus profissionais não são invenção deste século muito menos do trumpismo e do bolsonarismo.

As agressões de Trump ao processo democrático de seu país começaram muito antes da invasão do Capitólio por seus apoiadores. Primeiro ele tentou restringir o voto dos americanos pelos correios. Diante dos primeiros sinais de sua derrota nas urnas, passou a questionar o resultado, sem prova alguma. Moveu mais de 60 ações judiciais por todo o país. Pressionou autoridades para “arranjar” os votos de que precisava para vencer. Usou sua rede social para espalhar mentiras e dividiu o país.

Bolsonaro tenta surfar nesta mesma onda. No dia em que a sociedade norte-americana quebrou a onda trumpista – com o Congresso certificando à eleição de Biden depois da retomada do Capitólio dos invasores –, o presidente brasileiro fez uma série de falsas acusações sobre o processo eleitoral do País, obviamente sem apresentar evidências e muito menos provas, pois, como ensinou Mussolini, mais vale um blefe do que o fato. E ainda chegou a ameaçar: “Se nós não tivermos o voto impresso em 2022, uma maneira de auditar o voto, nós vamos ter problema pior que os Estados Unidos”.

Já não é mais possível tratar essas declarações como inofensivas ou exóticas. A imprensa, os líderes políticos, os presidentes dos demais poderes (da Câmara dos Deputados, do Supremo Tribunal Federal e do TSE) se manifestaram contra as falas de Bolsonaro, mas meras palavras são insuficientes. As instituições precisam se defender com ações, investigando e responsabilizando o presidente da República. Ele não é inimputável e jurou respeitar a Constituição. A Itália de Mussolini se acovardou, se omitiu diante do avanço do fascismo e viveu sob seu jugo por 21 anos. Os Estados Unidos reagiram. Qual caminho seguirá o Brasil?