Na eleição de 2018 os estrategistas de Ronaldo Caiado (DEM) entenderam que chegara a hora de seu candidato governar Goiás: “Estamos de cara pro gol, a faca e o queijo na mão, temos o cavalo selado, galopando em nossa direção, estamos mais perto do que nunca, a sorte do nosso lado e essa chance tem nome e sobrenome: Ronaldo Caiado governador”, dizia o jingle do candidato.

Como “a mudança é agora” – este era o nome de sua coligação –, os estrategistas da campanha dedicaram-se apenas a administrar essa suposta vantagem eleitoral. Não descuidou de enaltecer as qualidades pessoais atribuídas ao candidato, as mesmas cantadas em jingles de campanhas anteriores, “forte, guerreiro, sério, bravo e lutador” e, claro, “ ficha limpa”.

Por essas razões, Caiado “jogou parado”, como se diz no jargão do futebol. Apresentou-se como o candidato paz e amor e não se deixou enfurecer em nenhum dos confrontos com José Éliton (PSDB) ou com Daniel Vilela (MDB), seus principais adversários daquele pleito. Comportamento bem distinto do de um homem bravo e guerreiro. Assim, não houve confronto na eleição de 2018.

Nesses oito meses no cargo, Caiado teve de enfrentar as dificuldades do Estado, das quais tinha pleno conhecimento, afinal o desajuste das contas públicas nunca foi surpresa para ninguém. Só que agora ele tem a responsabilidade de encontrar a saída do labirinto. Mas a medida que ele caminha, o labirinto mostra-se cada vez mais sinuoso e, aparentemente, sem saída.

Quanto mais abre gavetas e armários do poder mais reforça sua convicção de que as causas da crise fiscal e da falta de fluxo de caixa do Estado para pagar contas e atender as demandas da população não resultam exclusivamente da disparidade entre receita e despesas. Está certo de que houve corrupção em grande escala. Falta mostrar as provas.

Há que se incluir neste cenário a decisão do PSDB goiano de lançar uma ofensiva para recuperar a imagem de Marconi Perillo e de seus governos. Os tucanos começaram a tirar seus bicos para fora, depois de meses encolhidos em seus ninhos para se recuperarem das feridas da fortíssima derrota de 2018. Completa o atual momento, o contexto político nacional pós-Bolsonaro de substituição do debate público programático e ideológico por posturas agressivas e conflituosas.

Tudo isso posto, o governador então trouxe à tona o conhecido DNA da família Caiado, que manteve adormecido na campanha passada. Vestiu-se de “homem guerreiro, bravo e corajoso” para lutar contra seu antagonista Marconi Perillo e deu início ao confronto adiado da eleição de 2018. As históricas diferenças entre os antagonistas Caiado e Marconi, que ficaram encapsuladas por 16 anos, quando eles se suportaram no mesmo grupo político, finalmente irromperam-se com violência.

A primeira batalha, travada por meio de quatro entrevistas do governador (em Muquém, dia 15; me Cidade Ocidental, dia 18; em Catalão, dia 20; e em Luziânia, dia 22) e cinco notas de Marconi (nos dias 18, 19, 20 e 22) termina favorável ao governador. Observa-se que ele falou em entrevistas em quatro cidades enquanto Marconi respondeu por meio de texto. Caiado anda por Goiás e Marconi mantém-se “refugiado”, para usar uma expressão de seu adversário, em São Paulo. Ele não pode andar de cabeça erguida pelo Estado para se contrapor no mesmo nível de quem o ataca.

Isso, contudo, não é suficiente para indicar que o ex-governador perderá a guerra, que continuará em outras batalhas e por um bom tempo. Para vencer em definitivo, o governador precisará ganhar sua principal batalha e que depende exclusivamente dele, ou seja, fazer uma boa gestão. Nesses oito meses, Caiado se mostrou confuso e seu governo não deslanchou. Hoje Marconi está frágil. Sua saúde política final, contudo, depende em grande escala do fracasso ou do sucesso de Caiado. Só no grito um guerreiro, como se apresenta o governador, não se sagra vitorioso.