A boa literatura é pródiga em examinar a firmeza moral dos homens na escassez. Obras como Ensaio Sobre a Cegueira, do português José Saramago, entram no terreno de uma ética cambiante conforme a fartura. Quanto menos recursos, menos humanidade.

O episódio de prefeitos sem qualquer ligação com os grupos de risco se vacinando na primeira fase, numa autêntica e brasileiríssima furada de fila, dá a dimensão do desafio que temos como nação. Além das dificuldades logísticas inerentes a um país de envergadura continental e das oscilações de humor de um governo guiado exclusivamente por ideologia, impõe-se essa vergonhosa porém necessária vigilância sobre a aplicação das doses. É preciso garantir o cumprimento integral do que foi previsto no plano nacional de vacinação contra a Covid-19, esse próprio ainda muito vago e à mercê de decisões pontuais de governantes menos escrupulosos.

O Brasil foi lento no processo de preparo da vacinação, e vai colher os dissabores dessa postura na forma de escassez de vacinas. Daí a importância do controle e da transparência dos critérios, detalhando inclusive a quem cabe a prioridade entre os profissionais de saúde - visto que até para esses não há quantidade suficiente nessa fase.