Fenômeno do mercado editorial, com mais de 130 mil exemplares vendidos, o romance Torto Arado, do escritor baiano Itamar Vieira Junior, assombra também pela fluidez do tempo. Embora o autor dê pistas ao longo da narrativa, a saga das irmãs de uma família quilombola na Chapada Diamantina infelizmente se encaixa em qualquer período da República. Trabalhadores submetidos a regimes análogos à escravidão, desprovidos de direitos elementares, ainda são uma chaga brasileira.

Não precisa se embrenhar no sertão remoto para que essa realidade nos salte aos olhos. Ontem, aqui mesmo em Goiânia, trabalhador explorado ao largo da lei foi resgatado de uma plantação de pimentas. Vivia em alojamento insalubre. Não havia contrato de trabalho. Após a fiscalização, o empregador foi notificado a pagar os direitos trabalhistas e verbas rescisórias ao trabalhador e multado.

Da nossa parte, como consumidor, fica cada vez mais patente a necessidade de se entender todo o processo de produção daquilo que é consumido, sob pena de financiarmos inadvertidamente esse regime exploratório.

Só assim, com Estado vigilante e população consciente, essa vergonha nacional vai enfim se restringir às obras de ficção.