Num mundo onde vigora a fantasia de que é possível superar adversidades exclusivamente pela competência individual, não chega a ser contraditória a incompreensão sobre um processo de imunização coletiva. Nessa lógica, a vacina é um instrumento de proteção pessoal, pouco importando o efeito epidemiológico benéfico com a interrupção da circulação do vírus. Vacina nenhuma vai ser coletivamente menos danosa do que a vacina menos eficaz. Até porque todas as ofertadas no Brasil têm sua contribuição cientificamente testada.

Portanto, soa pedagógica a decisão de empurrar para o fim da fila quem escolhe a marca do imunizante. Os chamados sommelier de vacina, ao pensar no próprio umbigo e por vezes alicerçados em desinformação circulante nas redes sociais, prestam um colossal desserviço. Agem em favor do vírus, não das pessoas.

Contudo, é preciso avaliar consequências de longo prazo. Pessoas que em julho de 2021 ainda se prestam a esse tipo de comportamento, por certo assumem outros, tão ou mais arriscados, por ignorância ou má-fé. Seria razoável empurrá-los para o fim, deixando-os soltos sem qualquer proteção, a sabotar a saúde coletiva?

Com a palavra, os epidemiologistas.