Episódio registrado num condomínio da capital, onde uma moradora se recusou a receber uma refeição das mãos de um entregador negro, horrorizou a parte mais civilizada da sociedade - que felizmente é a maioria.
O comportamento abjeto terá desdobramento inclusive policial, uma vez que a vítima e a empresa para a qual ela prestava serviço registraram boletim de ocorrência, com farta prova na caixa de diálogos do aplicativo de entrega. A própria plataforma tratou de banir a cliente.

Casos como esse, quando atitudes desumanas eclodem de forma brutal e sem qualquer filtro moral que por vezes dá a entender que a hostilidade contra negros no Brasil é branda, tem o poder de catapultar o debate transformador.

Porque é preciso levá-lo para muito além da indignação, por vezes pontual e pueril, das redes sociais. Uma das vozes mais influentes do movimento pelos direitos das mulheres negras no Brasil, a filósofa e escritora Djamila Ribeiro resume numa frase o posicionamento dos brasileiros em relação ao racismo: todo mundo sabe que existe, mas ninguém acha que é racista. Trata-se de uma lógica que se estabelece de forma sutil, não só no arroubo de uma injúria. Sem essa consciência, não teremos uma país plural.