Por Leandro Monteiro dos Santos

Um dos maiores legados que uma figura pública pode deixar ao final de sua carreira é a certeza de que fez tudo, ou quase tudo, certo, sem ter se comprometido negativamente por motivos quaisquer e sem relevância. Embora os erros, inevitáveis, apareçam em certos momentos, o legado também está na confiança de que esses erros servem para o amadurecimento e conserto das atitudes. Quando se trata de figuras públicas idealizadas na política, construir e deixar legados dessa natureza é desafiador, mas, de forma alguma, impossível.

Do alto de seus 86 anos, sendo 62 de vida pública na política, Iris Rezende decidiu encerrar a carreira em dezembro de 2020, pouco antes de deixar a Prefeitura de Goiânia, cargo este que já havia exercido por quatro mandatos. Iris Rezende se tornou um político de destaque desde sua primeira eleição para vereador de Goiânia, em 1959, sendo o vereador mais jovem da cidade, aos 25 anos, iniciando o que seria uma trajetória exemplar e bem sucedida.

O notório sucesso de Iris Rezende é, antes de tudo, fruto de um esforço na luta pelas causas sociais desde muito cedo. Os relatos de contemporâneos de Iris em sua juventude, afirmam seu caráter combativo à frente de movimentos que ganharam forma no Lyceu goianiense, por exemplo, motivados por sua voz ativa e importante para aquele momento. Fatores que foram essenciais também nas atividades com os mutirões há, pelo menos, 50 anos, quando Goiânia ainda começava a tomar contornos urbanos.

O conjunto dessas características, próprias de líderes natos e aguerridos, foi o que fez Iris Rezende alcançar um patamar de muito prestígio no âmbito político em nível nacional. Depois de ter sido eleito vereador, Iris começou a dar passos maiores, sendo, posteriormente, prefeito, deputado estadual, governador e senador da República, com eleição de todos os cargos por Goiás. O exercício dessas posições rendeu a Iris Rezende, além dos 62 anos de vida pública, uma imagem de respeito e admiração não só no Estado de Goiás, mas em todo o Brasil, uma vez que teve participação ativa, como ministro da Agricultura e da Justiça, nos mandatos de José Sarney e FHC, respectivamente.

A trajetória de Iris Rezende, como político atuante e benquisto, é digna de ser colocada sob análises e estudos de casos que podem colaborar com o desenvolvimento de projetos voltados para a sociedade, no geral. O caráter pedagógico existente nessa história de vida pode alavancar outras lideranças políticas, com o mesmo compromisso de luta e engajamento social responsável. Assim como fizeram outros políticos, a exemplo de FHC, Barack Obama, a criação de uma fundação ou instituto que, além de preservar a memória pública, também eduque e instrua outras pessoas, configura uma ação válida e benéfica para a sociedade.

Na realidade, soma-se à lista dos maiores legados que se podem deixar pelos líderes políticos, o de formar novas lideranças capazes de perpetuar o bom legado, numa cadeia crescente e propositiva de dias melhores. Em sua vida pública, Iris Rezende foi um caso de sucesso. Seria, talvez, o momento de ensinar aos jovens e aspirantes à vida pública a fórmula da boa política?