Quando eu tinha 19 anos, saí pra ir ao supermercado e no caminho de volta recebi uma ligação. Pelo telefone, uma amiga dizia: acalma sua mãe, sua casa pegou fogo. Eu lembro que perguntei uma única coisa: que tanto? E ouvi a resposta que eu mais temia: tudo!

Lembro que fomos eu, Kadu (na época meu namorado), minha mãe, minha irmã e a de uma forma estranha, confusa, lembro da Lurian, minha amiga de infância. Eu não me lembro mais do caminho, mas sei que quando chegamos, nossa rua estava interditada. Havia polícia, bombeiros e uma equipe da TV Record. Tudo estava no chão. Eu acho que não chorei imediatamente, lembro que minha irmã desmaiou e lembro da minha mãe dando entrevista pra TV, sorrindo, nervosa, dizendo que o importante era que estávamos vivos e que todo o resto conseguiríamos de novo.

Um dos bombeiros me chamou, me levou até dentro da casa, me explicou que não era permitida a entrada nos principais cômodos e que a casa provavelmente iria ao chão. Pediu pra não tentarmos pegar nada, mas avisou que lá no fundo, um cômodo estava a salvo. O quarto da minha mãe era um anexo da casa, tinha forração mais nova e não incendiou. Eu só consegui pensar que nossas fotos, que estavam no guarda-roupas haviam se salvado. Ainda teríamos nossas fotos.

Nossa casa estava no chão e eu me senti feliz porque ainda tínhamos as nossas fotos.

O choro veio depois, claro. Essa foi a primeira noite que eu dormi na casa do cara que eu namorava há mais de 4 anos. Nesta noite eu chorei até dormir. Ficamos dois dias sem casa, e aí alugamos uma nova, mesmo sem nada para colocar lá dentro. Ah, de forma misteriosa, quatro ou cinco homens que passavam pela rua na hora do incêndio retiraram as máquinas de costura da minha mãe. Ela tinha como trabalhar, e a gente estava vivo. Parecia suficiente.

No dia seguinte as doações começaram a chegar. Os vizinhos que nunca tinham conversado com a gente trouxeram mesa, cadeiras, colchões, roupas, sapatos e comida. Muitos amigos viram na TV, enviaram dinheiro, alimentos, toalhas, roupas de cama, panelas. A gente não imagina quanta coisa precisa em uma casa até que a gente perde tudo. A Lurian trouxe uma calça jeans, uma blusa, uma calcinha, um sutiã e um chinelo. Ela foi ao shopping e comprou tudo novo. Eu sabia naquele momento que eu nunca mais seria a mesma pessoa. Eu tinha uma roupa.

Na segunda-feira eu fui pra faculdade e sem que eu soubesse minhas amigas passaram de sala em sala em todos os cursos da ALFA para contar a minha história. A coordenação do jornalismo virou ponto de coleta. Cestas básicas, roupas, sapatos, lençol, tudo que se possa imaginar. Meus professores se uniram e um ou dois dias depois, no dia do amigo secreto me entregaram um envelope com dinheiro. Todos os professores contribuíram, me fizeram uma carta e eu paguei a última mensalidade do ano e comprei nosso guarda-roupas. As roupas que ganhamos foram reformadas pela minha mãe e algumas ainda estão no meu guarda-roupas depois de quase 11 anos.

Eu nunca conseguiria agradecer todo mundo por tudo isso, mas eu sei que eu nunca mais fui a mesma. Durante meses eu me lembrava de detalhes, de coisas que eu tinha perdido: uma coleção de barbies que eu tinha ganhado de uma amiga dos Estados Unidos, meus sapatos, minha coleção de melissas, minhas roupas, um colar de ouro que derreteu, bolsa, mochila, móveis, cartas, detalhes. Eu perdi detalhes e parecia bobo sofrer por detalhes tendo recebido tanto amor, tanto carinho, tantas doações. De fato, minha mãe estava certa. Estávamos vivas.  

Depois de tudo isso eu mudei muito. Eu passei a pensar que a vida é um dia de cada vez porque a gente nunca sabe mesmo como vai ser amanhã. Eu passei a olhar as pessoas com mais carinho e eu, que muitas vezes era grosseira, respondona, tentei e ainda tento pegar mais leve comigo e com os outros. Passei a amar as pessoas e dizer isso pra elas sempre que eu sinto vontade. De vez em quando, no meio do dia, eu mando mensagem pra algum amigo só pra dizer que eu amo e que estou com saudades.

No meio dessa pandemia, eu percebi, de novo, que eu não serei mais a mesma pessoa e eu ainda não sei o que é que vai mudar na Catherine dessa vez. Mas eu aprendi outra coisa. Eu sou a pessoa dos detalhes. Eu sei que o mais importante é não perder família, não perder amigos, não adoecer. Isso não significa, entretanto, que eu não possa sofrer pelos detalhes. Eu decidi então validar meus sentimentos, dar nomes e deixar doer. Uma hora passa!

Eu sou a garota que prefere ir à agência bancária e olhar na cara do gerente a usar o internet banking. Eu nunca peço comida para entregar, eu prefiro sair e me sentar, e comer. Eu não gosto de ir muitas vezes ao supermercado, mas uma vez por mês eu gosto de comparar preços nas prateleiras e escolher o que levar. Eu, que trabalhei dois anos em home office, prefiro acordar, tomar um banho e sair de casa arrumada, maquiada. Eu odeio almoçar sozinha, gosto de tomar café todos os dias com a Ivânia, minha amiga de trabalho.

Gosto de cumprimentar o porteiro, as meninas da limpeza. Gosto de conversar com o motorista e encontrar meus amigos jornalistas nas coletivas de imprensa. Eu gosto de sair perto das 14h porque dá tempo de ver a Cris, uma das minhas melhores amigas que divide mesa de trabalho comigo. Eu abraço meus amigos de trabalho todos os dias. Eu gosto de levar a Cecília pra escola e depois eu ouço uma música bem alta enquanto o sol, ainda fraco, entra pela janela do carro.

Eu adoro quando o final de semana chega e eu encontro meus amigos, reúno a família toda, quando nossas crianças brincam juntas e quando a gente come churrasco na piscina. Eu sou a garota dos detalhes e eu sei que o mais importante nesse período de isolamento é que a gente fique vivo. É por isso que estou fazendo a minha parte. É por isso que estou abrindo mão de tantas coisas que amo como abraçar as pessoas. Isso não significa que não posso sofrer por coisas relativamente “pequenas”.

O que eu quero dizer é que depois de situações tão complicadas, a gente não pode continuar sendo a mesma pessoa. Eu já aprendi uma vez o valor dos detalhes, mas dessa vez tá doendo ainda mais não poder fazer planos. Vamos um dia de cada vez, mas permita-se. Se você, assim como eu, sofre por detalhes, saiba que não está sozinho e que tá tudo bem. A gente tem o direito. Eu tenho e você também tem!

Ps: Eu escrevi esse texto em abril do ano passado, mas eu ainda não tinha uma coluna. Eu hoje estava escrevendo um texto novo, mas reli esse e pensei. Ainda me sinto igual. Um ano depois, pouca coisa mudou no meu peito além da gratidão de chegar até aqui viva e sem perder nenhum familiar. Força, gente!