Eu não tive tempo pra me despedir. Depois de um ano sem almoços de domingo, sem abraços, a vó se foi. No whatsapp, nossa última conversa incluía planos pra visitar nosso novo apartamento que ela não conheceu. Na casa dela, uma colcha de crochê que ela fazia pra mim em surpresa e que ainda não tinha terminado. Eu não estava pronta pra perder e acho que ela também não estava pronta pra ir embora. 

Como é que a gente escova os dentes, toma banho e vai pro trabalho depois de perder alguém que a gente ama? Como é que a gente segue a vida normal depois da morte de alguém amado? Continua a reforma da casa, a matéria especial, faz a compra do supermercado? Será que eu vou conseguir ouvir Trem das Onze como antes? E sorrir? E lembrar de você? 

A gente já perdeu avôs nos últimos anos. Doenças demoradas, internações longas e no fim a sensação de que a gente se despediu, de que era a hora. Não foi o coronavírus que levou a vó, ela se isolou como era necessário e contava os dias pra ver a família de novo. Duas doses da vacina e agora o plano era reunir todo mundo no Dia das Mães ou finalmente celebrar um Natal juntos. Não deu tempo.  

Uma internação que parecia simples transformou as nossas vidas em pesadelo. Em duas semanas, ela se foi. Mas foi o coronavírus que nos deixou distantes por um ano. Que impediu nossos abraços, nossas visitas, nossas festas. Quantas pessoas perderam pessoas e tiveram a sensação de que não se despediram? 

Essa vó me proporcionou almoços de domingo com casa cheia. Na maior perda dessa família, depois de quase 50 anos de casamento, ela foi forte. Viajou, voltou a dirigir, emagreceu, fez um cruzeiro do Roberto Carlos. E quando falava sobre o vô, ela dizia sempre que a saudade estava ali, e que a vida continuava. 

Ela morreu no mesmo horário em que toda a nossa família rezava um terço pelo zoom. Foi durante a nossa oração que ela se despediu.  Antes da morte eu rezei no chuveiro e me lembrei das últimas palavras dela pro vô. Eu estava no quarto do hospital quando ele partiu depois de seis meses de um câncer cruel. Depois de apertar forte a mão dele, ela disse que ele podia ir, que podia descansar, que não aguentava mais ver ele sofrer. E foi assim que ele descansou. No chuveiro, eu repeti as mesmas coisas pra ela. Tava doendo aqui, mas eu também não queria que ela sofresse. Se for a sua hora, pode ir. Ficaremos bem. Eu rezei dizendo estas palavras no meio das minhas lágrimas. 

Eu não sei se ficaremos bem de verdade, mas acredito que o tempo e a fé dão um jeito em tudo. Eu quero lembrar de todas as coisas boas ao seu lado. Das nossas viagens, das milhões de festas. Dos docinhos que a gente enrolava pros aniversários e que a senhora reclamava. Nossa fiscal do Inmetro medindo os doces e  reclamando dos desiguais. Fofoqueira, fã do BBB, do samba, do crochê, das plantas e com um coração do tamanho do mundo todinho. 

Nossa última refeição feita pelas suas mãos: o bacalhau da Páscoa. Não tinha família reunida, mas pelo segundo ano, tinha prato feito pelas suas mãos e entregue pra todos os filhos, netos e bisnetos. O drive-thru da vó. Eu vou te amar pra sempre, vó. Eu tenho ao universo toda a gratidão de ter sido amada por você. Eu quero me lembrar de todos os conselhos que me deu, de todos os dias felizes que passamos juntas, do seu perfume e do teu abraço. Um dia, a gente se abraça novamente! 

Eu sinto que não me despedi, mas eu sei também que disse que te amava todas as vezes que pude e mesmo sem abraço, você se foi sabendo que era amada, por mim e por todas as pessoas que cruzaram seu caminho. Vá com Deus, vó. Sua passagem por essa terra foi linda, digna de orgulho. Tenho certeza que todos que tem conheceram, amaram você. Eu sei que um pedaço de mim morre aqui, mas que em breve essa saudade seja doce e leve. Triste, mas grata por tantas lembranças lindas ao seu lado. E olhando pro céu agora, eu sei que você é a estrela mais brilhante!