"Já conheceu alguém que morava na praia, mas só colocava os pés na areia nas férias, em outra cidade?"

Eu guardava adesivos de caderno pra usar depois. Eu guardei desde a infância e o depois nem existiu. Um dia, já casada, minha mãe limpou um armário com nossas coisas de escola (minha e da minha irmã) e me pediu pra olhar o que podia ir para o lixo. E aí que tinha vários cadernos com adesivos. Tinha caderno da 5° série e eu tenho 10 anos de formada da faculdade. Resumo: eu guardei pra nunca usar.  

No meu casamento, ganhei jogos de xícaras lindos e talheres incríveis. Deixei pra depois. Usei os mais simples, guardei os chiquérrimos em um maleiro do guarda-roupa e esqueci que eu os tinha. De vez em quando eu lembrava, mas deixava lá.   

Em 2014, fui para a Europa e comprei panos de prato em Lisboa, perto do Castelo de São Jorge. Os que eu dei pra minha mãe desmancharam de tanto uso, mas o meu estava intacto junto com outro que ganhei de uma amiga, a Rosa, quando sai da assessoria da Asmego, em 2013. Lindos, mas eu tinha dó, sabe?  

A Cecília, minha filha, tem cinco anos e adora adesivos de caderno. Pegou todos os meus antigos e usou de uma vez só, há anos. Prega no corpo, na agenda, no caderno, em um papel qualquer. Acabam dos cadernos e agendas e eu compro mais na papelaria e ela usa sem dó. É barato demais!  

E aí que durante a pandemia olhando ela colar adesivos no corpo decidi revisitar meu maleiro, pegar os jogos de talheres e xícaras que não usava. Também comecei a usar meus panos de prato portugueses porque gente, o mundo todo estava morrendo e não fazia sentido guardar essas coisas. Agora eu uso minhas taças de cristal pra beber sozinha enquanto dou faxina. Eu mereço!  

A vida é curta demais pra guardar panos de prato, pra deixar intactos os adesivos de caderno. Já conheceu alguém que morava na praia, mas só colocava os pés na areia nas férias, em outra cidade? Ou que trabalhava no automático a semana toda pra curtir os filhos só no final de semana e quando o sábado chegava a pessoa estava exausta? É tipo isso. Não estou aqui falando da necessidade de trabalhar. A gente precisa e nem sempre tem disponível o tempo que gostaria pros filhos. É normal, maternidade real!  

Eu tô falando de achar que dá pra aproveitar só depois. Não dá!  O tempo passa e você nem vê. De vez em quando eu chego exausta em casa e quando a Cecília dorme eu cheiro, abraço e fico ali, parada por cinco minutos amando minha filha. É minha hora de usar os adesivos. Outras vezes aproveito pra brincar enquanto fazemos juntas o jantar ou a deixo lavar o meu cabelo ajoelhada no chão do banheiro, debaixo do chuveiro. Eu gosto de ir a um parque no meio da semana porque só nas férias é pouco demais. Gosto do clube na terça-feira à tarde. De sorvete às quartas.  

A gente precisa aproveitar cada segundo e eu tenho um lema: ser um pouco feliz, todos os dias. É que essa história de ser feliz quando tiver o carro novo, a casa nova, quando o trabalho for melhor ou quando conquistar um objetivo qualquer não existe. A vida é o caminho e não tem absolutamente nada, nadinha a ver com linha de chegada. É lindo quando a gente chega lá, mas percebe que também colheu muitas alegrias no caminho. São os amigos feitos na faculdade, o lanche compartilhado no trabalho, a mensagem de eu te amo no meio do meio do dia. Uma dose diária de felicidade. Eu tenho amigas que fiz no ônibus. É sobre o caminho. Inclusive, Loren Milhomem, minha amiga de ônibus que virou madrinha de casamento, te amo!  

Eu trabalho com amor. Encontro amigos sempre que posso. Digo que amo sem nenhuma vergonha disso. Digo muitas vezes porque se amanhã eu não puder dizer mais, eu disse quantas vezes foram possíveis. Eu sou feliz todos os dias e ainda sinto dificuldade pra entender pessoas que acreditam na linha de chegada. Eu sei, somos diferentes, mas dá vontade de olhar nos olhos e dizer: ou, fulano, a vida é hoje. Me abraça aqui, sorri, aproveita. Para de guardar adesivos. Você não vai usar depois!