Tudo bem? Essa é uma pergunta padrão! A gente começa uma conversa e pergunta se está tudo bem. Por muito tempo, a resposta era automática. Acontece que não é mais. A cada vez que eu pergunto, descubro o ponto fraco de um amigo, a tristeza, o medo, o desespero, a perda de alguém.

A cada vez que me perguntam eu me questiono quanto eu posso, quero ou devo expor dos meus sentimentos. Não tem nada bem, as contas não fecham, o emocional tá um caco, a psicanálise é que anda me salvando e quando eu não tenho intimidade suficiente pra expor como eu me sinto, eu minto. Tudo, e você?

Eu sempre senti que sentia demais. Por anos eu não conseguia dar nomes aos meus sentimentos. Misturava raiva com tristeza, chamava de preguiça o que era cansaço. Aprender a nomear é um processo incrível, mas é aí que a gente descobre cada coisa que nos afeta.

São lutas demais, meus amigos. Em resumo, se você perguntar a alguém sobre estar bem, espero que esteja preparado pra ser um colo amigo. E que o contrário também aconteça. Que haja colo suficiente pra segurar as suas dores. Ninguém está bem, então a minha máxima é: seja gentil!

Durante a pandemia eu fui ombro amigo de gente que antes eu não tinha intimidade suficiente. Amigos com depressão, síndrome do pânico, luto. Um dia perguntei pra um deles se estava tudo bem e descobri que ele estava com crise de pânico e que o irmão estava com câncer.

A cada crônica escrita, recebo mensagens e as pessoas que se identificam acabam compartilhando comigo um bocado de dor, se sentem abraçados ou de alguma forma, sentem que compartilhamos de sentimentos similares.

Outro dia, quando escrevi sobre assédio, recebi relatos de pessoas que conheço e que sofreram estupros. E é assim, quando eu abro um cadeado da minha gaiola, outros pássaros voam, mas na maior parte das vezes eu passo a conhecer suas feridas. Elas passam, então, a doer em mim.

Eu sinto uma saudade de quando eu não percebia como a política ou como a economia afetavam a minha vida. Agora, eu: adulta, jornalista, pagadora de boletos e cringe -  levo tudo pra psicanálise. Isso mesmo, horas falando sobre o preço do gás, o aumento da conta de energia, a política negacionista, as fake news.

A gente tem a sensação de que o dinheiro do trabalho fica na gasolina e no supermercado. As contas não fecham e a gente tá mal. Cecília, minha filha, de 5 anos, percebeu que na rua tem mais gente pedindo dinheiro. No sábado, a gente saiu pra almoçar e quando olhei para o banco de trás do carro, ela tinha pegado o próprio cofre e estava com ele no colo.

“Mãe, agora cada vez que alguém pedir, eu vou dar uma nota e uma moeda”. Metade do dinheiro veio da ‘fada do dente’. Minha vontade era explicar que aquele dinheiro é dela para outra coisa, mas a verdade é que eu engasguei, senti um orgulho danado da criança que eu estou criando e disse: tudo bem, o dinheiro é seu, pode fazer o que quiser.

Eu sempre me interessei pelo Oriente Médio e agora, com a tomada do Taleban passei a ler compulsivamente sobre tudo, seguir perfis locais, compartilhar. Tá doendo demais em mim e aí lendo outro perfil que sigo, vi um cara dizendo que essa luta não é nossa, que a gente precisa lutar primeiro pelos problemas locais e que compartilhar nas redes sociais não vai ajudar ninguém.

Eu engoli seco. Pensei por dias sobre os argumentos dele e cheguei à minha própria conclusão. Eu sofro sim, irmão. Viver é luta, é luta diária e é luta que vai muito além da minha bolha. É difícil e pesado e a cada notícia que eu leio, tipo a de hoje: ‘R$ 243 milhões em vacinas, testes e remédios vencidos no governo Bolsonaro’, eu tenho a certeza de que a gente não tem um dia de paz. Mas eu sei também que viver é resistir. E nós resistiremos! Eu resistirei e espero que tu também resista!