São incontáveis as obras de Chico Buarque, na música e no teatro, censuradas pelo regime militar entre 1964 e 1985. E são incontáveis as vezes que o compositor usou sua arte para denunciar o arbítrio, na maior parte do tempo usando de sutilezas que os censores, geralmente bastante toscos, não conseguiam perceber. Em outras, seu grito era alto e evidente e isso lhe valeu perseguições e ameaças que o levaram a se exilar, com a família, na Itália, já que aqui todas as portas haviam se fechado.

Isso não impediu que Chico, mesmo de lá, continuasse a declarar todo seu desprezo pela ditadura, em entrevistas e canções. Basta lembrar de Samba de Orly, música composta por ele e o amigo Toquinho (Vinicius de Moraes pegou uma rabeira nos créditos para que seu ciúme da parceria entre os dois amigos fosse aplacado) quando Chico ainda não podia voltar. “Pede perdão pela duração dessa temporada, mas não diga nada que me viu chorando. E pros da pesada, diz que eu vou levando.”

Outros sambas famosos, como Vai Passar e Apesar de Você, tornaram-se hinos da resistência ao regime, cantadas e citadas por lideranças democráticas, em protestos, o que rendeu represálias. Não era raro os shows de Chico serem sabotados, com a queda de luz e de som. Mesmo no final do regime, quando as alas mais radicais tentavam reverter a abertura, ele foi um alvo. Quando a bomba no Riocentro explodiu no colo de militares enviados para um atentado, quem estava no palco era Chico.

Outro episódio famoso daquele período foi quando a filha do então presidente Ernesto Geisel assumiu sua admiração pela obra de Chico Buarque, um desafeto do governo do pai. Ele não teve dúvidas e, assinando como o pseudônimo Julinho da Adelaide – fictício compositor da Rocinha –, engatou um rock chamado Jorge Maravilha, em que bradava: “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta!” Provocação que ainda dizia: “Mais vale uma filha na mão que dois pais sobrevoando”. O público delirava.

O mesmo Julinho da Adelaide é o “autor” do ácido samba Chama o Ladrão, em que um sujeito clama pela ajuda dos bandidos contra a atuação da polícia. Trata-se de uma dupla referência, mirando tanto a violência policial cotidiana nas comunidades mais pobres, quanto a perseguição do Estado daquele período, em que casas eram invadidas e pessoas detidas sem maiores explicações, tendo como única justificativa ser “subversivo”, “inimigo da Pátria”. Diante disso, gritava a vítima: “Chame o ladrão!”

Já no período da redemocratização, Chico se alinhou com o campo mais à esquerda. Ele chegou a engajar-se em uma campanha de Fernando Henrique Cardoso para o Senado, mas depois das eleições de 1989, quando compôs um jingle para o então candidato à presidência Lula, sua identificação maior é com o PT e seu maior líder. Mesmo nos momentos mais desfavoráveis para Lula, ele manteve a amizade, chegando a visitá-lo na prisão e participando de eventos em prol de sua liberdade.

Com isso, Chico passou a ser criticado pelos adeptos do antipetismo. Nas redes sociais, tornou-se um personagem que motiva disputas entre campos políticos adversários. Já foi até alvo de xingamentos de artistas e políticos que discordam de suas posições. Quando ganhou o Prêmio Camões, por exemplo, o presidente Jair Bolsonaro não o parabenizou. Chico parece não dar muita importância para isso. É como se cantasse um de seus versos: “Meu bem, não entendo, porque anda agora falando de mim”.