Durante esses dias de isolamento social em casa e buscando atividades alternativas, você certamente vai se emocionar e chorar com o filme espanhol Viver Duas Vezes, lançado no Brasil no início do ano. O longa original da Netflix é um drama sobre a saga do ex-professor universitário Emílio (interpretado pelo ator argentino Oscar Martinez) ao tentar encontrar um amor da infância antes do avanço do Alzheimer. A diretora Maria Ripoll (de Sabores da Vida) parte do tema emotivo para conquistar o espectador. Mas aos poucos faz uso de outros recursos.

Oscar Martinez, de Relatos Selvagens e O Cidadão Ilustre, conquista o espectador a cada cena de esquecimento e confusão mental provocados pelo Alzheimer. A angústia que o personagem sente quando percebe estar perdendo a sagacidade de seus tempos como professor de matemática, a reação devastadora do comportamento agressivo com a família e o isolamento que ele tenta se impor mexem com as emoções de quem assiste.

O melodrama é alimentado também pelos conflitos familiares. Emílio vive sozinho e tenta esconder os sintomas da doença. Mas a filha Júlia, papel da atriz espanhola Inma Custa (dos filmes Julieta e Kóblic), enxerga os sinais, embora tente negá-los. A família vive uma harmonia de fachada. Júlia é casada com Felipe, do mexicano Nacho López, que está desempregado e se torna coach. Eles passam por uma crise conjugal e as transformações da relação trazem alguma relevância ao filme, mas é a menor delas, o lado mais fraco do longa.

Em meio à emoção, o espectador também dá boas risadas com traços de comédia e questionamentos sobre os conflitos de gerações embalados pela tecnologia. É a neta Blanca, da estreante Mafalda Carbonell, que, mesmo com sua natural implicância de adolescente, consegue entender o avô na doença e em sua decisão de resgatar o passado.

Mafalda, assim como Blanca, tem uma deformidade nas pernas. A atriz, filha do ator Pablo Carbonell, vive um drama pessoal, sempre se submetendo a cirurgias, e agora experimenta o sucesso com sua estreia no cinema. A personagem se esconde no celular com vergonha da deficiência. E o que era um problema para a família, o celular acaba sendo instrumento de solução para o avô. A rebelde, que no início sugere que a mãe interne o avô em um asilo, conquista e é conquistada por ele. Ambos se transformam em passagens de emoção e humor e se tornam parceiros. Mafalda rouba a cena, é a grande surpresa do filme. Blanca, com sua história paralela, poderia render outro roteiro.

Do distanciamento entre os membros da família, a trama conduz a uma união entre eles, com certa leveza, quando todos partem em viagem para ajudar Emílio. Mais que um drama, Viver Duas Vezes é um road movie que se passa na Espanha. Enquanto todos vão aprendendo a lidar com a doença, partem em busca do antigo amor de Emílio. Margarita é relembrada em cenas de flashback e o principal foco da trama, cujo desfecho é inesperado. O romance traz reconciliações entre pessoas que precisam adaptar as próprias vidas em benefício de um doente. Uma história de amor, com fórmula simples e sem grandes pretensões. Mas que deu certo e se tornou destaque na Netflix.