Vencer, ganhar e acumular. Palco de disputas incessantes pelo sucesso – financeiro, profissional e até afetivo –, a sociedade pode ser vista de uma nova forma após a pandemia do novo coronavírus. Pelo menos é o que acredita Adriano Correia Silva, professor de Ética e Filosofia Política da UFG e presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia. “A experiência de colocar a vida em suspenso para cuidar de si, das pessoas amadas e não propagar o vírus comunitariamente tem potencial notável para contribuir para uma compreensão da sociedade como o lugar onde podemos experimentar e realizar coisas que jamais vivenciaríamos na vida estritamente privada orientada economicamente”, destaca.

Porém, o potencial apenas se confirmaria, de acordo com o professor, após o engajamento daqueles que agora se dão conta da relevância do Sistema Único de Saúde (SUS) e dos investimentos sociais em geral, além da atuação articulada para enfrentar um problema que somente dinheiro não pode resolver. “Penso que a compreensão mais solidária da sociedade, em que a intervenção do Estado possui um papel central, sairá fortalecida da pandemia, mas terá de enfrentar os que não se importam com a morte de alguns para aumentar seus lucros. Eles sempre estiveram e estarão por aí”, explica.

Por essas e outras, Adriano não acredita, como muitos sustentam, incluindo alguns filósofos, que passaremos a viver em um mundo novo, pós-ocidental, mais comunitário e pós-neoliberal. “Considerando especificamente o caso do Brasil, penso ser igualmente desafiador o fato de que há pessoas para quem os acontecimentos não têm sido relevantes para reavaliarem suas posições. A estupidez cultivada, a incapacidade de reflexão, a criação de um Brasil paralelo sobre os alicerces de mentiras fabricadas parecem extraordinariamente resilientes.” Para ele, o mundo em que passamos a viver recentemente, em que o despudor de expor o pior de si não é confrontado com o descrédito público, tem potencial para sobreviver à pandemia.

Antídoto

A valorização da ciência – Medicina, Epidemiologia e Estatística – e das humanidades – Filosofia, História, Ciências Sociais, Geografia e Economia – pode ser um antídoto a esse problema. Autor, entre outros, do livro Hannah Arendt e a Modernidade: Política, Economia e a Disputa por uma Fronteira, e referência no pensamento arendtiano, Adriano ressalta que a maioria dos que se opõem ao isolamento social possui a compreensão básica de que essa medida é decisiva para combater a pandemia provocada por um vírus altamente contagioso e evitar mortes em massa devido ao colapso do sistema de saúde.

“Parece claro que essas pessoas, pelo que revelam em seus discursos, sustentam que as mortes são parte da dinâmica social e não deveriam ser motivo para afetar a economia. Os negócios não podem ser atrapalhados pela morte de milhares de cidadãos. Essa incompreensão suicida, a insensibilidade e a falta de solidariedade que subjazem a ela, são coisas que não poderemos esquecer, porque elas não deixarão de existir quando passar a pandemia. Talvez o contrário: serão parte decisiva do mundo com que teremos de lidar”, ressalta. O mundo que virá não será produto da pandemia, mas das disputas que serão travadas a partir do que aprendermos com ela.

Apesar de destacar que a filosofia tem no passado e no presente seus objetos de análise, o professor Cristiano Novaes de Rezende, da Faculdade de Filosofia da UFG, acredita que, devido à pandemia do novo coronavírus, o próprio futuro, já agora, aparece transformado. “Há algumas semanas, parte da população julgava possível planejar, no campo individual ou no coletivo, no pessoal ou no profissional, com alguma plausibilidade. Hoje, não sabemos se, como ou quantos estarão vivos ao final do ano”, explica. Essa, no entanto, sempre foi a experiência de outra parte da população, que continuamente não sabe se chegará ao final da semana ou do dia.

“Por isso, penso que o mundo e o Brasil, depois da pandemia, sairão marcados por uma maior distribuição da experiência da vulnerabilidade. O que nascerá dessa experiência, porém, não é possível saber: se trocaremos nossos delírios de onipotência sobre a natureza e sobre nós mesmos por uma maior prudência ou se seguiremos protegendo esses delírios e fugindo do doloroso aprendizado.” Mergulhado por completo na vida em isolamento e com todos os desafios que isso impõe, o professor acredita que a pandemia pode ajudar a compreender que realmente somos todos partes de um sistema de relações de interdependência.

Para ele, a própria ideia de exclusividade é uma abstração. “Estamos todos num mesmo barco. Se não te salvo, não me salvo. Se você ficar doente e piorar, poderá ocupar um leito ou respirador dos quais eu posso vir a precisar. Faço o bem para o todo porque faço parte do todo e, portanto, ao fim, faço bem para mim”, explica o professor sobre o conceito de “egoísmo de longo-circuito”, que certamente é bem melhor do que o “egoísmo de curto-circuito”, no qual o indivíduo faz bem direta e imediatamente apenas para si, sem se importar com o outro.

As promessas de mudanças de atitude após a pandemia – com a valorização dos encontros, abraços e afetos – feitas por muita gente é vista com certa desconfiança por Cristiano. “Há um conhecido mecanismo de só darmos valor àquilo que perdemos. Entretanto, por quanto tempo pode resistir esse apreço arrependido? Suspeito de uma fragilidade semelhante à das promessas de fim de ano. Como professor apaixonado pela sala de aula, confesso minha esperança de que, pelo menos, os alunos que estão tendo de lidar compulsoriamente com formas de educação à distância sintam o tipo de perda que ocorre quando não há a copresença dos corpos num espaço comum que existe especificamente para a situação pedagógica”, avalia.