Um soco do melhor amigo, mudança na data de nascimento e a obsessão por escrever a grande obra da carreira. Esses e outros relatos sobre o vencedor do Nobel de Literatura de 1982, Gabriel García Márquez (1927-2014), estão presentes no recém-lançado livro Solidão e Companhia, da escritora colombiana Silvana Paternostro. A obra, diferentemente de tantas sobre o autor, apresenta Gabo, como era conhecido no meio literário, a partir de depoimentos de dezenas de pessoas que viveram com ele, como irmãos, amigos e conhecidos.

O livro nasceu de um convite que a autora recebeu de uma revista americana em 2001 para escrever um artigo sobre uma história oral de Gabo. Ela teve a ideia de fazer algo inédito ao retratar o colombiano e deu voz para gente que viveu ao seu lado. Durante a apuração, ela gravou 24 fitas de conversas, na Colômbia e no México, até receber a notícia que o trabalho não seria mais publicado. Silvana guardou o material e, dez anos depois, decidiu tirar o projeto da gaveta. Ela reouviu as conversas e incluiu outras entrevistas para concluir o livro.

Solidão e Companhia (o título se refere a uma produtora de filmes que García Márquez desejava montar), publicado pela editora Crítica, se divide em duas partes. Na primeira, irmãos e amigos narram histórias do autor antes do lançamento da obra-prima Cem Anos de Solidão (1967), que o transformou num ícone internacional. Estão nesses capítulos detalhes de sua relação afetiva com o avô, com quem vivia grudado, passagens da infância e as dificuldades para escrever os personagens centrais da sua grande obra da carreira.

Logo de cara, Silvana apresenta nas primeiras páginas um Gabo determinado desde cedo em ser escritor, mas muitas vezes inseguro, sem trabalho e que chegou a passar fome na Europa. Já quando estava escrevendo, os amigos contam que ele consultava parentes para lembrar de hábitos de Aracataca, sua terra natal, e até a cor dos vestidos das suas tias para poder levar para sua literatura. Ele tinha o hábito de distribuir rascunhos e sem cerimônia ligava a qualquer hora do dia para ler um trecho sobre o qual estava em dúvida.

Na primeira parte do livro, a autora retrata pelas vozes dos outros a obsessão do escritor em escrever a grande obra da carreira. Até a data de nascimento Gabo queria mudar para ter mais peso, segundo o que foi narrado pelo irmão dele, Luis Enrique García Márquez. Ele decidiu trocar o ano de batismo de 1927 para 1928 para coincidir com o período do duro massacre pelo exército colombiano dos trabalhadores da multinacional norte-americana United Fruit Company, atacados enquanto protestavam por melhores condições de trabalho.

Segunda parte

A segunda parte do livro apresenta um Gabriel García Márquez – que não foi ouvido para o projeto - consagrado pela crítica e premiado após a publicação de Cem Anos de Solidão. Nesse período, a autora faz algumas exceções no trabalho e abre espaço para escritores conhecidos e amigos dele, como o argentino Tomás Eloy Martínez e o americano William Styron. Eles trouxeram relatos valiosos como que para ser amigo de Gabo nunca deveria escrever sobre ele. Outra contribuição foi a fase que o escritor viveu em Paris, jovem e pobre.

Nessas páginas é revelada uma das histórias mais engraçadas. A autora fala sobre o soco que o peruano Mario Vargas Llosa, autor de Conversa no Catedral (1969), deu em seu então grande amigo Gabo, em 1976, durante um evento. Os detalhes foram contados pelo romancista e diplomata colombiano Plinio Apuleyo Mendoza e pelo fotógrafo colombiano Guillermo Ângulo. O motivo da agressão foi um mal-entendido quando o colombiano levou Patrícia (mulher de Llosa) ao aeroporto e falou algo que foi interpretado como uma cantada.

Atrasados, o escritor diz, sem pensar, para a mulher do amigo a caminho do aeroporto: “Se o avião decolar sem você, faremos uma festa”. Depois de um tempo, Patrícia conta a Llosa que “amigos seus como o Gabo estavam atrás de mim”. O sangue subiu e a chance da vingança veio numa pré-estreia de um filme num teatro na Cidade do México, em 1976. Antes do início do evento, Gabo avistou o amigo e foi em sua direção, com os braços abertos. Llosa fechou o punho e disse: “Isso é pelo que você tentou com minha esposa” e o derrubou no chão.

Rancor do biografado

Nascida em Barranquilla, na costa colombiana, mas criada nos Estados Unidos e formada em jornalismo, Silvana Paternostro participou de uma oficina para jornalistas ministrada por Gabriel García Márquez em Cartagena. Havia regras nesses encontros, como não era permitido entrevistar o autor, mas era possível relatar aquelas ocasiões.

A autora do livro, que escreve para diversos jornais e revistas como The New York Times, The Washington Post e Vogue, fez posteriormente duas crônicas sobre o escritor que o desagradaram profundamente. Isso porque ela o retratava como “avô” e sinalizava nas publicações não estar de acordo com seus pensamentos políticos.

Notícia do Nobel

Na carreira, García Márquez publicou títulos como Memória de Minhas Putas Tristes (2004), O Amor nos Tempos de Cólera (1985) e Crônica de uma Morte Anunciada (1981), entre outros. O livro retrata um dos momentos mais importantes da trajetória do escritor, como quando ele recebeu o prêmio Nobel de Literatura, em 1982, pelo conjunto da sua obra. A notícia chegou quando ainda era madrugada na Cidade do México, onde então morava. A partir desse momento, Gabo passou a ser muito assediado. Amigos contam no livro que Mercedes, sua mulher, sempre deixava os telefones fora do gancho porque não aguentava mais tantos convites e pedidos de entrevista ao marido.

Considerado um dos mais importantes autores do século 20, Gabo publicou o primeiro livro, A Revoada – O Enterro do Diabo, em 1955. No início de 1960, ele foi para Nova York trabalhar como correspondente, mas sua amizade com Fidel Castro, de Cuba, o tornou persona non grata no país. Depois disso, mudou-se para o México, onde publicou o livro Ninguém Escreve ao Coronel, em 1961. Em 1967, publicou o clássico Cem Anos de Solidão que, até hoje, já vendeu mais de 50 milhões de exemplares e foi traduzido para 35 idiomas. O autor morreu em 2014 e o motivo não foi divulgado, mas ele lutava contra o retorno de um câncer nos pulmões e fígado.