Uma das personagens mais marcantes da cidade de Goiás, Antolinda Baía Borges, a Tia Tó, morreu nesta quinta-feira aos 89 anos por complicações de um acidente vascular cerebral (AVC). Até o fechamento desta edição, o velório estava previsto para ser realizado na Igreja do Rosário, na antiga capital, ao lado da casa onde ela vivia, ainda sem hora definida. Assim que a informação da morte de Tia Tó foi anunciada, os sinos de toda as igrejas históricas da cidade foram tocados. A prefeitura da cidade decretou luto de sete dias.Antolinda estava internada no Hospital do Coração, em Goiânia, desde o dia 15. Ela passou mal na cidade de Goiás e chegou a ser levada para o Hospital de Caridade São Pedro de Alcântara, mas foi transferida para a capital a pedido do seu médico, o cardiologista Paulo César da Veiga Jardim. Na terça-feira, foi diagnosticado um AVC de grande extensão. Levada para a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), ela chegou a ser intubada, mas seu quadro tornou-se irreversível ainda na quarta-feira.Natural da ex-Curralinho, hoje Itaberaí, Tia Tó, como ficou conhecida, chegou com os pais na cidade de Goiás aos 2 anos de idade. Durante 40 anos trabalhou na Casa Veiga, o estabelecimento comercial mais importante da ex-capital goiana em décadas. A partir daí, foi ampliando sua rede de relacionamentos, quando foi convidada a ser a guardiã das igrejas da cidade de Goiás pela Fundação Nacional Pró-Memória, precursora do Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), tornando-se funcionária pública federal.Mesmo aposentada compulsoriamente, continuou dedicada aos bens patrimoniais de Goiás. Nos anos de 1960 teve um papel fundamental na criação do Museu de Arte Sacra da Boa Morte, instituição que reúne obras do escultor Veiga Valle e da qual foi a única diretora até 2019, quando foi exonerada. Incansável, percorria gabinetes de políticos pedindo ações e doações para a manutenção da história da antiga capital goiana, como a restauração de muitas das igrejas centenárias locais. “A cidade de Goiás é a filha que eu não tive”, costumava dizer.Patrimônio HistóricoEntre 1951 e 1956, Antolinda Borges atuou nas missões dominicanas às margens do Rio Araguaia e se vinculou às obras sociais da Diocese de Goiás para nunca mais sair. Ela foi uma das principais articuladoras do Movimento Pró-Cidade de Goiás que culminou na conquista do título de Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade, concedido em 2001 pela Unesco. Logo após, na virada do ano, quando Vila Boa foi duramente agredida por uma enchente, esteve à frente do projeto para a recuperação da cidade, ao lado de outras personalidades locais.Ao longo dos anos, o nome de Tia Tó esteve presente em atas oficiais de diversas instituições da cidade de Goiás, como o Museu Casa de Coralina, a Fundação Frei Simão Dorvi, o Hospital de Caridade Dom Pedro de Alcântara, a Organização Vilaboense de Artes e Tradições, o Gabinete Literário e muitas outras. Entre as muitas homenagens que recebeu, estão a Medalha Veiga Valle e a Ordem do Mérito Anhanguera, honraria concedida pelo governo de Goiás. REPERCUSSÃO“Recebemos com muita tristeza a notícia da morte da Tia Tó. Ela foi uma das pessoas que mais lutou pela preservação da cidade de Goiás. Trabalhou incansavelmente para cuidar da memória da antiga capital do Estado. Também era uma influenciadora política. Sabia como poucos como transitar por diversos setores. Mesmo com idade elevada, ela nunca ficou de fora das discussões culturais e religiosas de Goiás. É uma perda significativa”Aderson Liberato Gouvea, prefeito da cidade de Goiás“A Tia Tó foi uma das principais personagens da cidade de Goiás por ser a guardiã do nosso patrimônio cultural. O nosso título de Patrimônio Cultural da Humanidade foi conquistado graças ao trabalho dela de cuidar dos nossos casarios. Sou nascida e criada na antiga capital e sempre presenciei o carinho que ela tinha por cada cantinho de Goiás e estamos tristes pela sua partida. A Tia Tó foi uma mulher forte, guerreira e dinâmica e deixa um legado importante”.Selma Bastos, ex-prefeita da cidade de Goiás“A Tia Tó era como o ar da cultura que a cidade de Goiás respira. Foram mais de 50 anos como diretora do Museu da Boa Morte, numa administração bastante admirável. Era uma mulher vital, foi ela quem mandou restaurar o estandarte do José Joaquim da Veiga Valle, utilizado pelos farricocos na Procissão do Fogaréu. Aos 89 anos, estava ativa, lúcida e envolvida em todas as discussões culturais e religiosas da antiga capital do Estado. Ela vai fazer muita falta e Goiás agora terá essa lacuna para resolver”.PX Silveira, produtor cultural e responsável pela curadoria do Instituo Biapó"Tia Tó era uma figura emblemática da Cidade de Goiás, lutava e brigava por ela. Se emocionava com as notícias boas, como quando a cidade ganhou o título de Patrimônio Cultural Mundial. No dia ela recebeu a notícia, saiu da casa dela e foi até a minha casa para contar para mim e minha família. Chorou com muita emoção, era apaixonada por Goiás. No dia seguinte, nos ajudou a armar um show meu no palácio em que cada um ganhou uma vela para acender em agradecimento aos céus pelo título. Ela participou de todas as manifestações culturais da cidade - tudo passava pela Tia Tó. Figura ímpar, muito emotiva dos dois lados: brigava e xingava por Goiás e também vibrava por Goiás como muita pouca gente. Vai ficar marcada". Marcelo Barra, cantor“Antolinda nasceu na roça, passou por Itaberaí, mas foi na cidade de Goiás que se encontrou. Lutou por todas as causas importantes que envolviam a velha capital. Era uma mulher de gênio forte e que nunca deixou de estar em defesa daquele maravilhoso patrimônio cultural. Na vida, tia Tó não enrolou. Pode seguir tranquila para o andar de cima, pois aprendemos suas lições. Ela deixa uma recordação carinhosa e amiga em cada um de nós.”Salma Saddi, ex-presidente do Iphan em Goiás“Antolinda Borges ou Tia Tó, foi uma das fundadoras do Museu de Arte Sacra da Boa Morte. Desde sua criação em 1968 até 2006 ela esteve a frente da direção do MASBM. Com a criação do Instituto Brasileiro de Museus em 2006, ela passou a ser a representante da Diocese de Goiás fiscalizando as ações do Museu até 2018. Tia Tó, foi defensora do patrimônio cultural Goiano, bem como, da obra do artista Veiga Valle. Ela defendia cada bem cultural com unhas e dentes. Agora nossa missão é dar continuidade ao seu legado de preservação e difusão do patrimônio histórico, cultural e artístico goiano.” Tony Boita, representante do Ibram em Goiás“A Tia Tó ficará marcada na nossa memória para sempre, porque conseguiu confundir sua própria história de vida com a da terra que ela tanto amava. Ela será lembrada como um ícone de defesa do patrimônio, da religiosidade e das nossas tradições. Uma batalhadora. Sentiremos muito sua falta. Ela tinha um conhecimento incrível. Foi ela que ensinou para todo mundo a cuidar e amar a antiga capital do Estado. A nossa missão é cuidar do seu legado”Rodrigo Passarinho, presidente da Organização Vilaboense de Artes e Tradições (Ovat)“Ela era uma heroína da cidade. Fizemos questão de homenageá-la tocando os sinos das igrejas anunciando a sua morte. Estamos muito consternados e tristes, mas damos graças a Deus pela vida dela, pela missão que ela desempenhou para todos nós. A cidade de Goiás se sente um pouco órfã neste momento.”Rafael Lino, sineiro e provedor da Venerável Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos"Recebi com muita tristeza a notícia de que uma das figuras mais importantes da Cidade de Goiás, a Tia Tó, morreu nesta tarde. Ela tinha 89 anos e não resistiu às complicações de um AVC. Meus sinceros sentimentos à família e amigos de Antolinda Baía Borges"Ronaldo Caiado, governador de Goiás, via Twitter“Tia Tó e a Cidade de Goiás se confundem. Ela era o rosto desta amada Vila Boa de Goiás, Patrimônio da Humanidade, título que, aliás, dever-se em grande monta ao incansável trabalho realizado por ela e outros abnegados apaixonados pela justa causa. Nada se passou em Goiás em mais de sete décadas sem que Antolinda Baía Borges, de alguma maneira, fosse protagonista. Tia Tó passa para a história como grande ícone da memória e da história de nosso Estado. Depois de fazer tanto o bem aqui na Terra, com certeza colaborará, a partir de agora, com a obra do Criador, intercedendo por todos nós. Beijos, minha querida amiga!” Valéria e Marconi Perillo, por meio de nota Em defesa da Vila Boa de GoiásHá mais de 50 anos amiga de Tia Tó, Marlene Velasco conta que ela citava a dupla como “a tampa e o balaio”. Juntas, levantaram bandeiras, provocaram debates e brigaram pelos pormenores vilaboenses. “Ela dedicou a sua vida à cidade de Goiás”, afirma Marlene, que é diretora do Museu Casa de Cora. Foi ela quem acompanhou Tia Tó ao hospital em Goiânia e esteve ao seu lado até que o estado de saúde se agravou. O cantor Marcelo Barra disse ao POPULAR que tem profunda gratidão por Antolinda Borges. “Ela é a cara de Goiás. Tudo tinha de passar por ela. E sempre brigou por mim.”Marcelo Barra dá um exemplo de como atuava Tia Tó. “Logo que Goiás ganhou o título da Unesco, ela deu a ideia de fazer um show especial com velas, no Palácio Conde dos Arcos, para comemorar a conquista. Ela comprou mais de 300 velas e, na hora da apresentação, com todas elas acesas, muito emocionada, chorou.” O cantor lembra que Tia Tó era uma das vilaboenses de alma que sempre odiou a menção à cidade de Goiás como “Goiás Velho”. “Já a vi destratando uma turista por causa disso”, conta, rindo.Ao lado do amigo e parceiro de ideais, o historiador Helder Camargo manteve por 40 anos o Acampamento do Sol, em Aruanã. Eles também foram sócios da Pousada do Sol, no Centro Histórico. Tia Tó, mesmo com o avançar da idade, continuava atuante, tanto na pousada, onde se tornou sócia de Manuel Garcia, da Construtora Biapó, quanto no Instituto Biapó, em frente ao Museu Casa de Cora Coralina, onde respondia pela presidência.