A mãe trabalhando em home office e os três filhos amarrados e amordaçados no escritório. Vídeo de homens africanos dançando ao som de música eletrônica, enquanto carregam caixão num funeral. O cantor Manoel Gomes acaba de anunciar que fará uma live com duração de seis horas cantando apenas Caneta Azul. As redes sociais sempre foram uma máquina de produzir memes, mas, em meio à pandemia do novo coronavírus, a fábrica parece estar cada vez mais afiada.

Filmes, séries, quadrinhos, lives dos cantores sertanejos, Big Brother Brasil e o tédio provocado pelo excesso de tempo livre dentro de casa tornaram-se um prato cheio na produção de memes, assim como será a rotina dos brasileiros quando essa quarentena terminar. Em outros casos, apenas um texto transmite toda a mensagem. Um estudo recente divulgado pela Fundação Getúlio Vargas mostrou que o Brasil é o quarto país que mais comenta sobre o novo coronavírus no mundo e que 34% dessas publicações são carregadas de piadas.

“O humor e a risada ocupam papel fundamental nessa perspectiva, pois provoca conexões, interações, trocas e provocações. Rir de si mesmo nesses momentos permite distanciar da própria realidade e observá-la, expandindo sua consciência e reconhecendo-a de maneira mais leve, agradável e prazerosa”, avalia a psicóloga Kálita Estulano. Estudos sobre humor têm mostrado que as piadas mais engraçadas são aquelas com as quais o público se identifica com o personagem.

Para não perder a graça, a rotatividade é um dos segredos para o sucesso do humor na internet se manter em alta. O meme de hoje não é mais o meme de amanhã. Outra fórmula para viralizar é quase sempre não seguir regras de etiqueta. “Não temos limites. Normalmente, falamos de tudo, zoamos tudo. Não temos compromisso nenhum com o politicamente correto. Só queremos rir e fazer os outros rirem”, destaca o publicitário Edmar Antônio de Magalhães Junior, de 27 anos, integrante da página Goiânia Mil Grau.

Edmar Junior ressalta que o cotidiano é a fonte de inspiração da página que é administrada por três amigos. “Tudo que a gente vive cria insight para conteúdo. Como não estamos saindo de casa por conta do isolamento, acaba que buscamos referências em notícias e lives dos cantores”, revela. O coronavírus já foi retratado de várias maneiras pelo grupo na internet, como na descoberta de um remédio para a doença: a cachaça Corote. “Fizemos posts de conscientização e paródias que atingem mais pessoas do que se a gente falasse de uma maneira séria”, comenta o publicitário.

O grupo faz uma média de quatro postagens por dia. No Instagram, eles têm mais de 63 mil seguidores, no Twitter são 11 mil, no Facebook, 13 mil, e no YouTube, 3 mil. “Nossas publicações variam bastante com o que está acontecendo na cidade. Se está parada, a gente fica sem assunto, se tem eventos, fazemos os posts”, confirma Edmar. Goiânia Mil Grau foi criada no início de 2013 e um dos maiores sucessos foi uma paródia apresentando a capital para a cantora Demi Lovato em 2017, quando ela foi anunciada como uma das atrações do festival Villa Mix.