Quem visitar Pilar de Goiás, a 244 quilômetros de Goiânia, encontrará uma novidade que enche os olhos pela beleza e que valoriza ainda mais o conjunto arquitetônico da cidade. Depois de quatro anos fechada, foram concluídas as obras de restauro da Igreja de Nossa Senhora das Mercês. O monumento, erguido por escravos entre 1783 e 1824, em estilo colonial e tombado desde 1980 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), será entregue à população no domingo, às 14 horas, em uma cerimônia de bênção.

As obras de restauro começaram no segundo semestre de 2016. Primeiro, foi feito um levantamento dos danos físicos por Marisa dos Santos Assumpção, arquiteta do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A vistoria encontrou problemas como rachaduras, infiltrações no forro do altar e toda a estrutura de madeira do telhado comprometida por cupins. “Toda reforma é uma caixinha de surpresas. Descobrimos que a parte elétrica estava em risco e foi preciso refazê-la”, ressalta a arquiteta e urbanista Anamaria Diniz, coordenadora do trabalho. O projeto, proposto pela Arte Plena Produções, contou com a assinatura também da arquiteta Anna Carolina Cruz.

O conceito da reforma foi o de intervenção de caráter conservativo, que reconhece e mantém algumas características arquitetônicas anteriores e substitui apenas o necessário. O projeto de restauro da igreja, orçado em R$ 250 mil, foi iniciativa da Associação de Obras Sociais da Diocese de Uruaçu. A entidade foi financiada pelo Fundo de Arte e Cultura do Estado de Goiás, na modalidade Restauro de Bem Material por meio do Edital 7/2016. “Fizemos um verdadeiro milagre econômico. Era muita coisa e pouco dinheiro”, lembra Anamaria.

A arquiteta lembra ainda que foram necessários no restauro da igreja a execução de reforços estruturais importantes, intervenções nas argamassas internas e externas, pintura do imóvel à base de cal – bastante utilizado em imóveis coloniais – e projetos técnicos prediais. O piso e o forro do altar também estavam deteriorados por conta da ação de cupins. “A proposta foi, basicamente, não descaracterizar a arquitetura do século 18”, conta ela, destacando que em todo o processo de preservação foram ouvidos os moradores.

A grande preocupação da arquiteta após o fim das obras é o uso constante da igreja, que estava fechada havia muito tempo. Mas, segundo o padre Beneval Menezes Teles, responsável pela Paróquia Nossa Senhora do Pilar e todas as capelas do entorno, serão realizadas apenas duas missas por mês no imóvel, a cada 15 dias, a partir da data da entrega. “Vamos manter uma programação fixa e também teremos um funcionário para cuidar do local e receber os visitantes”, afirma o religioso.

História

Erguida pela Irmandade dos Pardos e por escravos, a Igreja de Nossa Senhora das Mercês é um dos monumentos mais representativos do século 18 no Estado por guardar maior originalidade e integridade. A primeira capela com essas características coloniais foi fundada em Belém (PA), em 1633, por espanhóis. O monumento em Goiás possui talha barroca no altar-mor em madeira, assim como um púlpito e coro também em madeira. Sua torre sineira lateral com escada exterior é típica das igrejas menores do período em Minas.

Relatos históricos revelam que diversos escravos foram condenados à morte na forca, construída ao redor da capela em Pilar de Goiás, cidade também tombada como patrimônio pelo Iphan. Não faz muito tempo que a igreja passou por outra restauração de conservação. Em 2008, o imóvel foi entregue à população depois de um trabalho que teve início no final de 2007, e concluído em seis meses de obras, ao custo total de R$ 198 mil. Os recursos foram do Ministério da Cultura e do Programa Brasil Patrimônio Cultural.