Em 6 de dezembro de 1745, o Vaticano publicou a bula Candor Lucis Aeternae (Candor da Luz Eterna), assinada pelo papa Bento XIV. O documento, pouco conhecido pela maioria das pessoas, tem uma relevância imensa para os destinos goianos. A partir daquele dia, estava criada a Diocese de Goiás, com sede na antiga Vila Boa, mas os fiéis só veriam passar pelas ruas de pedra da cidade um dos titulares da prelazia em 1824, quando Dom Francisco Ferreira de Azevedo chegou à então capital, depois de seus quatro antecessores nomeados nunca terem posto os pés no Planalto Central, considerado longínquo demais.O baiano Dom Francisco era cego e chegou pouco depois da Independência do Brasil, num tempo em que o ciclo do ouro já se exaurira, Goiás perdera riquezas, mas uma elite agrária estava em formação. Ele foi o responsável pela elevação de Goiás de prelazia a bispado e inaugurou a figura pública do bispo em uma sociedade muito influenciada pela religião, o que é visto até hoje. Nesta nova reportagem da série e sobre os 20 anos da concessão do título de Patrimônio da Humanidade à cidade de Goiás, a fé é a protagonista, elemento sempre central para os vilaboenses.“A religião para as pessoas da cidade de Goiás é muito importante porque aqui ela produz cultura”, afirma Rafael Lino Rosa, coordenador do Memorial da Educação Brasilete Caiado e pesquisador do tema. Ele é o atual provedor da Venerável Irmandade do Senhor dos Passos, fundada na cidade no mesmo ano de 1745, o da criação da diocese. Suas pesquisas levaram Rafael a um mestrado sobre a identidade do povo goiano e a um doutorado a respeito do imaginário religioso dos moradores de Goiás. “É um elemento aglutinador.”Da influência da cultura africana aos jogos de poder, das festas privadas aos principais cartões-postais da antiga Vila Boa, tudo, de uma forma ou outra, passa pelos caminhos da religião em Goiás. A Irmandade dos Passos, da qual Rafael é o 159º provedor, é a única que sobrou de várias outras que foram extintas, como a de São Miguel e Almas, da Boa Morte, de Nossa Senhora do Carmo dos Homens Pardos e de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. As principais personalidades que já pisaram naquele que foi o Arraial de Sant´Anna (homenagem à padroeira e mãe de Maria) tinham alguma ligação com a fé.O artista plástico Veiga Valle, por exemplo, foi provedor da Irmandade dos Passos. “Ele nos deu de presente a repintura da imagem do Senhor dos Passos, que hoje está na Igreja São Francisco de Paula”, informa Rafael. Irmandade que ainda mantém seus rituais, promove sua procissão anual e tem mais de 600 integrantes atualmente. Desde 1750, eles saem às ruas para reverenciar a imagem de Jesus, uma tradição secular que teve seu primeiro hiato no ano passado, por conta da pandemia. “A procissão tem sete paradas, antes feitas em pequenas capelas que existiam na cidade. Hoje só há duas delas”, lamenta Rafael.A religiosidade está de tal forma no imaginário de Goiás que se reflete na música. Nas missas das sextas-feiras da quaresma, por exemplo, a Igreja São Francisco de Paula, com seu teto decorado com os afrescos feitos em 1869 por André Antônio da Conceição, um artista local, é tomada pelos motetos compostos pelo padre Basílio Martins Serradourada, também no século XIX. Os motetos são frases dos Evangelhos que ganham melodia. “São sete motetos dos Passos e sete motetos das Dores”, explica Rafael. “Quando o Senhor dos Passos sai nas procissões, ele para 7 vezes. Em cada vez, um moteto é cantado.”Para além desses grupos mais fechados, há celebrações todos os meses do ano e várias procissões que dão a oportunidade para os habitantes reforçarem seus ritos e suas orações. A mais famosa delas é a do Fogaréu, realizada na Semana Santa. “Ela estava esquecida, mas nós a reavivamos, até para melhorar o movimento na cidade”, lembra Elder Camargo, um dos responsáveis por este resgate, em 1965. A encenação da captura de Jesus Cristo, que percorre as ruas de pedras, iluminadas apenas pelas tochas acesas dos farricocos, tornou-se uma das imagens mais conhecidas de Goiás em todo o Brasil.“Nós começamos com três farricocos”, recorda Elder. “Eles entravam nas igrejas onde paravam. Mas a gente percebeu que faltava dramaticidade. Aí incorporamos os tambores. Antes, todos vestiam-se de preto. Depois foi mudando com o tempo. Foi um resgate de uma tradição que desde o século anterior não era feita”, acrescenta. -Imagem (Image_1.2334150)