Eric M. B. Becker disse, certa vez, que traduzir é criar uma língua diferente, uma que mantenha as características da original, mas que possa ser compreendida pelos leitores da língua alvo.

“É uma terceira margem do rio, como a do conto de Guimarães Rosa”, disse. A metáfora não foi gratuita, visto que ele falava justamente sobre a tradução de Grande Sertão: Veredas, a ser feita pela australiana Alison Entrekin. A questão levantada: como traduzir uma obra de difícil leitura mesmo para brasileiros? A linguagem usada por Guimarães Rosa na obra pode ser considerada já uma segunda língua, diferente da brasileira. Logo, não é difícil imaginar a amplitude do desafio de traduzir palavras como “nonada”, verbete que não faz sentido para muitos brasileiros e que é apenas um dos mais de 8 mil neologismos e resgates linguísticos usados pelo autor no livro. Por isso ler Grande Sertão, nas palavras da própria Alison, é como “pisar em um país estrangeiro onde as pessoas falam um dialeto semelhante à sua língua, mas com um sotaque tão diferente que é preciso lutar para entender as frases.” Não à toa, ela classifica o processo de tradução da obra como uma “travessia”.

Em entrevista sobre esse processo de transposição entre línguas ao O POPULAR, Alison contou como sua formação em criação literária e o interesse por autores latino-americanos, somado ao casamento com um brasileiro, resultaram na carreira de traduções da literatura brasileira para a língua inglesa. Entre a mais de uma dezena de autores traduzidos estão Paulo Lins, Clarice Lispector e Adriana Lisboa. Neste ano, devem ser lançadas mais três traduções suas: O Irmão Alemão, de Chico Buarque (Macmillan), Fim, de Fernanda Torres (Restless Books) e Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos (Pushkin Press).

Como surgiu o interesse por Grande Sertão: Veredas? O que chamou sua atenção para a obra?
Tentei ler Grande Sertão anos atrás, quando meu português não dava para tanto. Simplesmente não saía do lugar, e acabei desistindo. Foi só mais recentemente, quando a agência literária que representa a obra entrou em contato comigo, que retomei a leitura. O que chama a atenção é a maneira com que a narração de Riobaldo vai embalando, seduzindo o leitor com sua alquimia linguística, puxando-o para dentro da história.

Como é traduzir uma obra que já foi considerada intraduzível?
Primeiro, esquecer que é intraduzível. É claro que não existem traduções dicionarizadas para neologismos, nem sintaxes tradicionais descritas nas gramáticas que darão conta das sintaxes novas de Riobaldo, mas quem disse que essas coisas não podem ser inventadas em inglês no espírito do original?

Houve alguma preparação para esse trabalho?
Não sei se me preparei propriamente para isso, já que livros assim são raros na vida de qualquer tradutor. Mas sempre gostei de traduzir poesias, consideradas intraduzíveis por alguns, e já li muitos autores cujo estilo não é lá tão convencional. É o que se pode fazer em termos de preparação.

A única tradução existente de Grande Sertão para o inglês, publicada em 1963, foi bastante questionada. Como lidar com a pressão de fazer uma tradução melhor?
A primeira tradução para o inglês, The Devil to Pay in the Backlands, publicada nos Estados Unidos em 1963, traduziu apenas a história, sem tentar resgatar ou recriar o estilo de Guimarães Rosa. Sem essa dimensão linguística, que é a graça do livro, o que fica é um gostinho de história de caubói, impressão exacerbada pela domesticação da tradução. Parece que se passa no velho oeste americano e você quase escuta um sotaque americano ali. É complicado; sotaque é algo do qual a gente não se livra com facilidade (porque a língua falada já vem imbuída de sotaque), mas creio que a tradução poderia ter resistido mais a essa força colonizadora.

Você acha que o leitor de língua inglesa receberá bem a grande quantidade de neologismos empregada por Guimarães Rosa e também todos os “erros” de sintaxe?
Não sei se é uma questão propriamente do leitor de língua inglesa. Tem gente que gosta de livros desafiadores, e gente que não gosta. As obras de James Joyce, muitas vezes comparadas às de Guimarães Rosa por sua complexidade linguística, são um bom exemplo disso. Tem quem ama e quem não curte. Eu quero que a obra conquiste as mesmas pessoas que leriam Joyce, que são mais abertas a novas linguagens. O que vier a mais é brinde.

Na prévia da tradução publicada pela revista Words without Borders, em julho de 2016, é possível ver que você esbarrou em algumas palavras que são mantidas em português, caso de “sertão”. Há outras?
Intercalei “sertão” com “backlands” na tradução porque “sertão” localiza a história no Brasil, e “backlands” vai dando a ideia do que é. É uma questão bastante importante em qualquer tradução, ainda mais nessa obra: o tradutor leva a história até mais perto do leitor estrangeiro, que não sai do conforto de sua poltrona, ou traz o leitor para onde a história se passa? Domestica ou “estrangeiriza”? Eu prefiro a segunda opção. Mantive “campos-gerais” em português pelo mesmo motivo, e porque Riobaldo menciona “esses gerais” mais a frente, fazendo referência aos dois gerais: os campos-gerais e o estado de Minas Gerais. Se limar um deles na tradução, a frase não se sustenta.

Muitos tradutores dizem que traduzir é criar outra língua, uma que mantenha as idiossincrasias da língua materna, mas que seja compreensível aos leitores da segunda língua. É possível dizer que isso será levado ao extremo por você na tradução, já que o próprio Guimarães Rosa, ao escrever, já criou outra língua?
É possível dizer, sim, que Guimarães Rosa criou outra língua, mas não podemos esquecer que ele também fez muita garimpagem, sempre anotando coisas nos cadernos que carregava consigo. Ao que me parece, ele reflete certa realidade brasileira, como bem observou a escritora Mariana Tavares, quando me escreveu num e-mail: “A minha avó, seus irmãos, minha bisa-avó e tios e tias, todos falam como os personagens de Guimarães Rosa. Para eles, as palavras são como barro que pode ser moldado de diferentes maneiras para servir ao propósito da comunicação.” Mas sem dúvida, vou ter que criar outra língua na tradução, por não existir um dialeto correspondente em inglês que dê conta do português de Guimarães Rosa. Mesmo se existisse, eu não poderia usá-lo porque remeteria a esse outro lugar.

Você conheceu o sertão sobre o qual fala Guimarães?
Não conheço, mas pretendo conhecê-lo, na primeira oportunidade. Preciso conhecer Cordisburgo, as pessoas do sertão, sentir o mundo deles.

E com o material simbólico deixado pelo autor, como as cartas trocadas com os tradutores que traduziram a obra para alemão, italiano e francês, por exemplo?
As cartas trocadas com os tradutores originais são uma espécie de visita guiada à cabeça do autor e pretendo me debruçar sobre elas. Conheci também um membro da família, muito solícito, que se ofereceu para ajudar com o que for preciso.

Berthold Zilly está fazendo nova tradução de Grande Sertão para o alemão. Vocês mantêm algum tipo de contato?
Sim, estamos em contato, e tenho certeza que vou “alugá-lo” muito ao longo da travessia.

Você demorou a conseguir apoio financeiro para realizar o trabalho. Conte um pouco sobre essa jornada.
Já se foram três anos desde o primeiro e-mail da agência literária, no qual perguntaram se eu tinha interesse pelo projeto e se faria uma amostra de tradução. Topei, até para sentir na pele o que é traduzir um livro assim. A amostra foi aprovada, mas eu sabia desde o começo que o maior desafio para viabilizar o projeto seria achar quem bancasse. Como o livro é praticamente desconhecido nos países de língua inglesa, eu imaginei que o apoio viria do Brasil, onde o livro já ocupa seu devido lugar no cânone literário e é reconhecido como um dos maiores romances do século 20. Depois de bater em muitas portas, de instituições privadas e públicas, dentro e fora do País, e uma tentativa de enquadrar o projeto na lei Rouanet (recebeu avaliações técnicas positivas, mas foi barrado na reunião final), eu estava quase desistindo de encontrar uma solução. Foi quando o Itaú Cultural decidiu abraçar o projeto, com uma parceria que vai além de um simples apoio financeiro. Haverá a produção de outros conteúdos escritos e audiovisuais ao longo do processo, para documentar a travessia.

Alguma editora já demonstrou interesse na obra? Qual?
Sim. Será publicada nos Estados Unidos pela Alfred A. Knopf, a mesma editora que a publicou em 1963. O editor responsável descobriu o último exemplar daquela edição nos arquivos da Knopf e se apaixonou pela obra e pelo projeto. Na Inglaterra, será lançada pela prestigiosa Jonathan Cape, por ocasião do centenário da editora.

No Brasil, fala-se muito que, se Machado de Assis escrevesse em inglês, com certeza faria parte do cânone mundial. Como Guimarães Rosa seria visto, se tivesse escrito em inglês?
Não tenho dúvida de que seria considerado um dos maiores escritores de todos os tempos.