Muita gente duvida que a Holanda exista. Entende-se. Ela é minúscula e escondida, meio criptorquídica. Na Europa, ela não está no norte, como os charmosos países escandinavos; nem no sul, como os calorosos latinos; nem no centro, como a Alemanha e a Itália. Esquecida em um canto do continente, seu ínfimo território, além de plano e chato, é todo pontilhado e preenchido por rios e canais. O que sobra de terra é disputado a tapas e fortunas de euros, em minúsculas porções por seus habitantes. O que se pode esperar de um lugar desses? Não fosse a honrosa participação, usualmente coadjuvante, de seus atletas em alguns eventos esportivos internacionais, a Holanda seria tida como uma espécie de Atlântida que (ainda) não submergiu, um país que existiu nos livros, fictícios ou não, uma terra limítrofe entre o Mundo de Oz e os Países Baixos.

Mas, podem crer, ela existe – ou pelo menos afirma assim o Fraguinha, que lá até morou. Eu, que o visitei, ainda tenho cá minhas dúvidas. Então, como todo país que se queira real tem uma comida típica, um prato nacional, talvez pela gastronomia tenhamos uma forma de provar que a Holanda realmente exista.

O que elescomem

Sopas: a gloriosa erwtensoep é uma sopa de ervilhas trituradas tão grossa que parece mais uma gelatina! Lembra a sopa verde portuguesa: recebe bacon e outros peças suínas, cenoura, cebola, aipo e batata. É uma das mais emblemáticas comidas holandesas. A groetensoep (de legumes, massa e almôndegas) e a hutspot, uma espécie de cozidão, completam a tríade da fama dos grossos caldos de Atlântida, digo, Holanda.

Peixes e frutos do mar: como (quase) ainda não desapareceu sob as águas, os holandeses são pródigos em receitas que incluam ostras, camarões e moluscos. Mas nada se compara ao arenque, o hering, ele mesmo, o peixinho das camisetas tão populares no Brasil. A forma mais tradicional de experimentá-lo é cru e salgado ou defumado, direto das bancas das feiras livres de todo o país para a sua boca, especialmente no fim do primeiro semestre, em maio/junho. Não se pode deixar de mencionar também o filé de enguia defumado e servido sobre torradas...

Cervejas: as cervejas holandesas não são tão boas quanto as trapistas da vizinha Bélgica, nem tão bem produzidas quanto às checas, mas, algumas, até que são bem honestas. Tem a também trapista La Trappe e as mundialmente famosas Amstel (hum...), Heineken e Grolsch.

Jenever: um destilado aromático a partir de sementes de zimbro com graduação alcoólica de aproximadamente 50% nas versões mais populares (quem precisa de coffee-shop?). É a sopa de ervilhas das bebidas holandesas, o orgulho nacional.

Queijos: a iguaria que mais nos leva a crer que esse país realmente exista. O Gouda é o melhor e mais conhecido dos queijos holandeses, constituindo 50% da produção nacional. É uma variedade semidura e de gosto suave quando nova, características que se modificam com a idade. Outros de renome são o Edam e o Leindse, este que tem sua fama derivada do fato de ser temperado com cominho e ter, em sua capa, o desenho das chaves de Leiden, cidade maravilhosa.