No primeiro dia, a brincadeira foi fazer uma enorme obra de arte com palitos de picolé. Mais tarde, a sala do apartamento transformou-se em um espaço para brincadeiras antigas, como pique-pega e pular corda. No segundo, a atividade planejada foi separar os velhos brinquedos para reutilizá-los ou doar e, antes de dormir, momento de leitura. Criar e manter uma rotina para os dois filhos tem sido a lição de casa da psicóloga Karla Cerávolo, de 36 anos, depois que as aulas escolares foram preventivamente suspensas por 15 dias devido à atual pandemia do novo coronavírus.

Os pais foram pegos de surpresa no domingo com a determinação do governo pela suspensão de aulas em escolas públicas e privadas de todos os níveis, como medida para evitar o avanço da doença em Goiás. Com os filhos em casa, o desafio daqui para frente será programar uma rotina com atividades lúdicas para evitar a tentação dos filhos de ficar a maior parte do tempo nas telas (TV e celulares), videogames e eletrônicos. A quebra forçada na rotina escolar não precisa ser traumática e também não deve ser tratada como férias.

“Não se trata de férias. Os pais devem esclarecer aos filhos o que está acontecendo para eles não terem aulas e não mudar muito a rotina de alimentação, sono e de atividades escolares e de casa. O ideal é manter a criança envolvida nos estudos, fazendo leituras e brincando com jogos de tabuleiro”, aconselha a psicopedagoga Kariny Garcia. O recomendado para as famílias nesse período é incentivar atividades que envolvam as habilidades motoras, sensoriais e de raciocínio lógico que ajudam a ocupar a criança por mais tempo.

Segundo a especialista, apesar da aparente falta de agenda - por não ter atividades escolares -, é importante ter uma organização de tarefas para manter a criança em casa. “A quem mora em apartamento não é indicado descer para brincar no parquinho. O momento é de reclusão total para evitar uma contaminação”, alerta. Karyni também pede atenção dos pais para não deixarem os filhos envolvidos com aparelhos eletrônicos. “Muitos pequenos estão apresentando atrasos no desenvolvimento por falta de estímulos apropriados da idade”, conta.

A hora é de abusar da criatividade dentro de casa. É o caso da rotina de Karla Cerávolo com os filhos. “A minha sala, por exemplo, é muito pequena, mas não tem desculpa. A gente coloca uma cadeira para o lado e o sofá para o outro e brincamos de um monte de coisas. O período é uma boa oportunidade de se conectar com os filhos e de se conhecer ainda mais. Faz quanto tempo que a gente não senta para pintar e se sujar de tinta, de brincar com massinha e de ler para ele dormir?”, destaca a mãe de Davi, de 6 anos, e de Bento, de 4 anos.

A primeira coisa que Karla fez quando as aulas foram suspensas foi contar para os filhos o que estava acontecendo e que nos próximos dias eles desenvolveriam trabalhos em casa. Ela conta que mudou o horário da babá porque continua atendendo no consultório, mas que criou três atividades diárias “bem legais”. “É uma fase para aprender a brincar com o filho. No primeiro dia, o meu menino mais velho reclamou. Ele disse que coisa chata era ficar o dia todo preso e falei que era temporário e expliquei o que era o coronavírus e a gravidade do problema”, comenta.