Um senhor de aspecto pacífico, bem alinhado, com óculos de aros grossos, ouviu impassível, por semanas seguidas, sentado dentro de uma jaula de vidro, o desfiar de atrocidades. Documentos, imagens e testemunhos presenciais reviveram na sala de um tribunal, em Jerusalém, o genocídio do povo judeu durante a Segunda Guerra Mundial nos campos de concentração nazistas. O homem na jaula, aparentando ser um pacato cidadão comum, assistia sua própria obra. Adolf Eichmann havia sido o arquiteto logístico da matança.

O responsável por coordenar os comboios da morte, que levaram milhões de pessoas para as câmaras de gás e os fornos crematórios, transportadas feito gado de vários países europeus, só havia parado ali, no recém-criado Estado de Israel, depois de uma operação que envolveu o serviço secreto do país, a temida Mossad, realizada na capital argentina. Eichmann e vários outros fugitivos nazistas vieram se esconder na América do Sul, onde encontraram regimes de viés fascista que lhes eram simpáticos. Em Buenos Aires, recebeu nova identidade e proteção.

Mas em 11 de maio de 1960, tudo mudou. Um grupo de agentes secretos o capturaram perto da casa onde morava placidamente com a esposa e um sobrinho, no bairro de Olivos, e o levaram para um esconderijo, onde permaneceu confinado por alguns dias. Depois, foi embarcado no avião que trouxera a delegação diplomática israelense para as celebrações dos 150 anos da independência da Argentina. A ação provocou sério incidente entre os dois países, preço pago com prazer pelo governo de Israel, que enfim julgaria um dos algozes dos judeus.

O julgamento de Nuremberg, na Alemanha, em 1945 e 1946, já havia levado à forca ou ao suicídio diversos membros do topo da hierarquia nazista, mas o tribunal foi comandado pelos vencedores da guerra, os Aliados (EUA, Inglaterra e a então União Soviética). No caso de Eichmann, ainda que ele fosse uma figura secundária no regime de Hitler, era a primeira vez que as vítimas, os judeus, tinham a chance de acertar as contas com quem tentou exterminá-las. A Netflix lançou recentemente o filme Operação Final, contando essa saga.