Aprender para transformar o mundo a sua volta. Dar autonomia ao sujeito para que destinos sejam reescritos. Fazer da educação uma chave de compreensão da vida, possibilitando mudanças, mais consciência, desejos de melhorias. O que o educador Paulo Freire propõe em suas muitas obras não é pouca coisa, mas não é impossível. Pelo contrário, o poder de promover alterações em realidades tão difíceis por meio do conhecimento está, segundo ele, ao alcance de todos, nas vivências que cada um pode reelaborar transformando-as em lentes que fazem com que outras perspectivas sejam enxergadas.Cem anos atrás, esse pernambucano nascia no Recife e algumas décadas depois proporia uma pedagogia que revolucionaria processos de alfabetização, sobretudo de jovens e adultos, e mostraria que a educação jamais deveria ser de poucos. Hoje, 24 anos depois de sua morte, ele se tornou o intelectual brasileiro mais citado em estudos internacionais, suas concepções podem ser encontradas nos cinco continentes e seus métodos referenciam projetos e outras teorias. Mas aquele que foi escolhido em 2012 como Patrono da Educação Brasileira também é alvo de ataques de quem o considera um subversivo, uma ameaça.“Ele pregava um diálogo profundo por meio do conhecimento da vida do sujeito. Ele atua na dimensão da humanização”, afirma a educadora Sônia Couto Souza Feitosa, coordenadora do Centro de Referência Paulo Freire, que integra a fundação que também tem o nome do educador. Com mestrado e doutorado na USP sobre as ideias e métodos do pedagogo e com a experiência que quem tem quase 30 anos trabalhando na instituição fundada por Freire, ela avalia que a maior parte das críticas lançadas contra o trabalho do autor é leviana. “Muitas das pessoas que tanto criticam sequer leram seus livros”, contrapõe.Segundo Sônia, existe uma demonização do nome do educador atualmente, num processo parecido com o que ocorreu durante a ditadura militar, quando Paulo Freire foi exilado do País por ser considerado “subversivo”. “Costumavam dizer que era comunista, baderneiro, quando não era nada disso. Ele trazia, na verdade, uma visão pacificadora, esperançosa, que propunha uma nova realidade às pessoas, sobretudo às mais pobres, aos camponeses, levando os vetores dos saberes. Hoje temos novamente a circulação dessas fake news sobre ele, quando, na verdade, Freire buscou pensar as desigualdades sociais”, argumenta.“A pedagogia de Paulo Freire se constitui como um ato intencionalmente político e transformador”, aponta Aldimar Jacinto Duarte, professor da Pós-Graduação em Educação da PUC Goiás. “Político, tendo quem como sujeito de direito e de poder? O povo, os oprimidos em toda sua diversidade. Transformador em que sentido? Propõe mudança radical para superação das relações políticas, sociais, econômicas, culturais e paradigmáticas que têm como objetivo a construção constante das desigualdades como mecanismo de afirmação dos poderes construídos na sociedade moderna.”Em sua visão, os atuais ataques a Paulo Freire são uma resposta a políticas que, entre 2002 e 2013, promoveram a inserção de contingentes que estavam alijados historicamente. “Tudo isso, com certeza, incomodou os segmentos sociais que, reconhecidamente, intencionalmente sempre se colocaram contrários a uma ideia de democracia que de fato tivesse o povo como centro. Ao se oporem a ações políticas que integram, que incluem, se opuseram também aos fundamentos teóricos que sempre se colocaram para formar o povo na conquista de tais direitos, ou seja, à pedagogia de Paulo Freire”, acrescenta Aldimar.“Para uma parcela da sociedade, não interessa a implementação dessa perspectiva de Freire”, reforça Maria Margarida Machado, professora da Faculdade de Educação da UFG e que desde os anos 1980 atua em projetos que trabalham com pedagogias propostas pelo educador. “Colocar isso em prática é tirar o cabresto, sair de mentiras tantas vezes veiculadas em muitos espaços. Freire enfrenta essa ignorância sobre a realidade.” Ela considera que discussões sobre Escola sem Partido e Ideologia de Gênero estão no contexto dos ataques a Paulo Freire. “Integram um momento antidemocrático e autoritário.”Maria Margarida vê retrocessos nas políticas públicas sobre educação com reformas que vêm sendo implantadas desde 2015. “Ainda que nunca tenha havido a adoção de preceitos freirianos na educação pública, havia ao menos uma orientação nesse sentido. Oxalá a educação brasileira fosse baseada em Freire, como alguns dizem. Isso evitaria, por exemplo, os rompantes fascistas que vemos hoje.” Ela lamenta a situação. “É desrespeito com o que o Brasil produziu, por tanto tempo, na educação de jovens e adultos, por exemplo. E há um prejuízo à abertura de acesso à educação pública e de qualidade.”“Na frente do Ministério da Educação há uma estátua de Paulo Freire. Ela precisa atravessar a rua e entrar no MEC. Isso ainda não aconteceu”, concorda Sônia Couto. “Houve e há experiências interessantes que levam os preceitos freirianos para a prática, mas não uma política mais abrangente”, completa Maria Margarida. Ela mesma fez parte de algumas dessas iniciativas. A educadora, que chegou a cursar Química e depois optou por História, participou dos chamados Ciclos de Cultura nas periferias de Brasília e, depois, integrou projetos de alfabetização de jovens e adultos em Goiânia a partir dos anos 1990.Inovações da pedagogia freirianaTão comentadas, mas tão pouco compreendidas. As ideias que Paulo Freire apresentou ao longo de sua carreira como educador suscitam debates acalorados, mas nem sempre são devidamente entendidas. “Em um contexto social (décadas de 1940, 1950 e 1960), no qual o povo não era reconhecido como sujeito de direito e, muito menos, como humanos (negros, índios, mulheres, trabalhadores do campo e da cidade), Paulo Freire traz o povo para o centro do processo social, cultural e, educacional como seres humanos, e que, como tais, têm todo direito a uma existência digna”, pontua o professor Aldimar Jacinto, da PUC Goiás.Voltando seus olhos com mais ênfase para os adultos que ainda não eram alfabetizados, o que impedia progressos profissionais e pessoais, Paulo Freire começou cedo a refletir e a praticar o que lhe parecia mais adequado. Primeiro como professor de língua portuguesa num colégio do Recife, em meados dos anos 1940, depois como diretor do setor de Educação e Cultura da Confederação Nacional da Indústria, entre 1947 e 1954, Freire percebeu que o analfabetismo era uma chaga aberta, mas que o aprendizado da leitura e da escrita devia vir acompanhado de maior conscientização das classes trabalhadoras.“Paulo Freire, a partir de sua sensibilidade de classe, conseguiu construir naquele espaço um modelo educacional preocupado com as relações entre escolas e famílias, questionando a compreensão das dificuldades das pessoas”, destaca Aldimar. “Ele foi construindo a sua prática educacional numa práxis, em uma constante curiosidade e sensibilidade com o povo, o trabalhador, imerso em uma realidade de desigualdade social.” Aí está a gênese de algumas de suas obras mais influentes, como Educação como Prática da Liberdade e Pedagogia do Oprimido.No início dos anos 1960, no governo João Goulart, Paulo Freire teve suas ideias acolhidas, desenvolvendo mais seus métodos. “Ele nunca tinha uma resposta pronta, mas fazia perguntas para que a pessoa conseguisse chegar a um pensamento autônomo. Na verdade, as respostas já estavam na pessoa, em seu cotidiano, em sua vida prática. Ele fazia essa relação”, diz Sônia Couto, do Centro de Referência Paulo Freire. As demandas dos alunos eram inseridas na sala. As primeiras palavras que os camponeses aprendiam, por exemplo, estavam ligadas ao seu universo de trabalho, ao seu imaginário.Primeiro em Pernambuco, depois em outros Estados do Brasil, os métodos freirianos, com sólida base teórica e em correspondência com outras linhas da pedagogia, começaram a ser praticados em mais larga escala na primeira metade da década de 1960. A mais famosa experiência foi na cidade de Angicos, Rio Grande do Norte, onde 300 trabalhadores rurais foram alfabetizados em 45 dias. O golpe militar interrompeu esses trabalhos e mandou Freire para o exílio. No exterior, ele continuou a lapidar suas ideias, o que favoreceu que elas pudessem chegar a outras partes do mundo. Os reflexos disso são vistos hoje.“Recebemos pesquisadores de todo o mundo”, informa Sônia Couto, do Centro de Referência Paulo Freire. Ela cuida de um dos grandes acervos deixados pelo educador. “Temos aqui cerca de 600 volumes de sua primeira biblioteca, que ele formou antes de ser exilado. Havia mais, mas houve uma enchente durante o exílio dele e muitos volumes foram perdidos. Depois ele formou outra biblioteca, com cerca de 5 mil livros, após seu retorno. Além disso, temos a correspondência dele.” Esse material é ouro em pó para quem deseja mergulhar na obra do pedagogo. “Pedagogia do Oprimido está traduzida em 22 idiomas.”Atualmente, Paulo Freire não só é o autor mais citado do Brasil em trabalhos acadêmicos em todo o planeta, como ocupa a terceira posição nesse ranking mundial entre teóricos da área de humanas. Ele recebeu 29 títulos de doutor honoris causa em instituições de vários países. Na volta ao Brasil, durante o processo de redemocratização, Paulo Freire continuou seu trabalho, fundou o Instituto que leva seu nome, trabalhou em prol de cursos de formação de professores e foi titular da Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura de São Paulo na gestão de Luíza Erundina. Ele morreu em 2 de maio de 1997.Experiências pelo BrasilO professor Denis Venceslau conhece bem as metodologias de Paulo Freire. Educador social da Comissão Pastoral da Terra em Afogados da Ingazeira, no sertão pernambucano, ele não só se beneficiou com a pedagogia freiriana, como hoje a aplica. “A metodologia de Paulo Freire permite me conectar melhor com o cotidiano de trabalhadores e trabalhadoras, com a vida do povo, com a labuta diária”, observa. Filho de uma zeladora de cemitério e de um ferreiro, ele não tem dúvidas sobre o quanto conhecer as ideias de Freire mudou sua vida. “Se eu não tivesse o contato com elas ainda na juventude, não seria o que sou hoje.”Ele conta que a aproximação se deu, primeiramente, via Igreja Católica. “Fiquei encantado com o trabalho da CPT. Fui me aproximando da Pastoral aos poucos, sem entender muito, mas encantado. Porque quem vivencia Paulo Freire se encanta, até quem não o conhece”, garante. “Mesmo sem entender Paulo Freire naquela época, as ideias desse educador ajudaram a trilha do meu caminho. Acredito que se sua pedagogia, se sua vida, se suas ideias fossem mais disseminadas, não teríamos profissionais da educação criticando-o sem fundamento, não teríamos muitos alunos do campo deixando a escola.”A professora Maria Margarida Machado, da Faculdade de Educação da UFG, também tem vivências nesse sentido ao levar adiante projetos envolvendo a pedagogia de Paulo Freire em turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA), de idosos e, em certo momento, até com centros de educação noturna espalhados por Goiânia. Um deles chegou a contemplar trabalhadores da limpeza urbana, com aulas dentro da Comurg para quem desejava se alfabetizar. “Foi muito interessante, mas é preciso lembrar que, para esses métodos se efetivarem, é necessário haver a formação de professores nessa pedagogia.”“Houve muitas experiências educacionais no Brasil inteiro e em Goiânia, entre 2001 e 2004, sob a gestão da professora Walderês Nunes Loureiro, buscaram implementar uma prática educativa que tivesse a perspectiva pedagógica de Paulo Freire como fundamento”, recorda Aldimar Jacinto, da PUC Goiás. “Experiências que produziram ótimos resultados no sentido de proporcionar o acesso dos estudantes dos setores populares ao conhecimento científico sistematizado e às experiências educativas que proporcionaram aos professores e educandos uma imersão em sua realidade histórica e social no sentido de compreendê-la.”Coerência como marcaNo início dos anos 1990, a professora Maria Margarida Machado fazia um trabalho de extensão na Universidade de Brasília e, num certo dia, Paulo Freire foi à instituição. “Eu o conheci e o que chamava a atenção era a coerência que havia entre o que ele escreveu e como ele se portava. Uma sintonia entre o discurso e a prática.” Sandra Couto, do Centro de Referência Paulo Freire, confirma essa imagem. “A principal marca dele para mim é a coerência. Eu tive a oportunidade de conviver com ele por um ano, em reuniões, em projetos. Ele fazia exatamente o que propunha em seus estudos.”Uma coerência que deve ser compreendida e analisada diante de sua obra, não do que falam dela, muitas vezes de forma imprecisa. “Não é fácil ler Paulo Freire. Ele é profundo e dialoga com muitos autores e correntes”, lembra Maria Margarida, da UFG. “Os referenciais freirianos dialogam com o pedagogo Frantz Fanon, que trabalha questões ligadas ao colonialismo, cujo livro principal é Os Condenados da Terra. Ele dialoga com os marxistas, mas também com as comunidades eclesiais de base da Igreja Católica, dentro do espectro da Teologia da Libertação. São ensinamentos que passam pela Filosofia, pela História.”Identificar essa coerência só é possível quando as dinâmicas do educador tornam-se familiares. “Parte das pessoas se referenciam em críticas que buscam refutar o pensamento de Paulo Freire sem nenhuma plausibilidade científica. Outra parte, que pode até ter lido, não buscou compreender os pressupostos metodológicos e teóricos que contribuíram na construção do pensamento freiriano. E uma terceira parte pode até ter estudado, mas se referencia, intencionalmente, em uma perspectiva política e social que se opõe ao que ele representa enquanto pensamento social de libertação”, alega o professor Aldimar Jacinto.“Paulo Freire também é muito influente em outras áreas que não a da Educação”, sublinha Sandra Couto. “Como seus métodos priorizam a relação entre as pessoas, pregando o diálogo entre os sujeitos, ele tem sido não exatamente usado, mas debatido em campos de conhecimento diferentes, como a Medicina e o Direito.” Também nos estudos da Comunicação, o pedagogo é considerado um dos nomes de maior relevância em toda a América Latina. “Sem dúvida, ele teve grande contribuição na construção do pensamento educacional brasileiro, latino-americano em todo o mundo”, constata Aldimar. Aumento nas vendasO Grupo Record tem os atuais direitos de publicação dos trabalhos de Paulo Freire e tem relançado seus principais títulos pelo selo Paz e Terra. Desde 2019, quando os ataques às ideias do educador passaram a ser mais frequentes até em nível governamental, seus livros têm tido um aumento de 60% nas vendas, em média, de acordo com números divulgados pela viúva do pedagogo, Ana Maria Freire.Veja algumas de suas obras em catálogo.- Pedagogia do Oprimido- Pedagogia da Esperança- Pedagogia da Autonomia- Educação como Prática da Liberdade- Professora, sim; Tia, não- Medo e Ousadia: O Cotidiano do Professor- Educação e Mudança- Direitos Humanos e Educação Libertadora- Política e Educação-Imagem (Image_1.2322712)-Imagem (Image_1.2322711)