Não deveria ser assim, mas arte urbana e depredação andam de mãos dadas nas grandes cidades. Perto de completar o primeiro ano, o monumento Caleidoscópio do artista plástico goiano Siron Franco, instalado na Praça Cívica, foi alvo de vandalismo na madrugada de terça-feira. Uma espécie de tinta misturada com ácido foi jogada em um dos painéis da escultura e respingou nas seis peças espelhadas que representam figuras indígenas e de crianças. A instalação foi entregue em 24 de outubro de 2015 – no aniversário de Goiânia e junto com a requalificação da praça. O custo da obra foi de cerca de R$ 800 mil.

Segundo Siron Franco, os estragos não foram maiores porque na produção da instalação permanente foi utilizado um material de alta qualidade para dar durabilidade à obra suportando chuva, sol, poeira e até algumas possibilidades de vandalismo humano. A limpeza do monumento será feita a partir de segunda-feira por uma equipe da prefeitura com monitoramento do artista. “Se a obra tivesse sido construída com aço inox comum, o ácido jogado em cima teria corroído e o prejuízo seria enorme. Agora o grande trabalho aqui será de mão de obra mesmo. Vamos ter que lixar e polir para deixar cada peça com o brilho de antes”, analisa.

“É uma sensação de agressão. Aquilo agride também toda a população. Ali tem dinheiro público. Nós temos que amar nossa cidade e não depredar. É claro que é uma minoria da sociedade, mas ela faz um estrago enorme também. É preciso de leis para coibir esse tipo de ação. No exterior quando alguém faz algo parecido com isso vai preso e paga para restaurar. Tudo no Brasil é violentado, é criança, é mulher, pessoas com qualquer necessidade física e a obra de arte não escapa. É estranho, horrível, é um desrespeito. Fico perplexo. Você dedica sua vida, faz com amor e recebe isso em troca. É muito louco porque passei por isso outras vezes em Goiás”, lamenta.

Siron Franco refere-se ao grande Monumento às Nações Indígenas, um dos símbolos nacionais na comemoração dos 500 anos do descobrimento do País, que se tornou apenas arremedo do que foi em 1992, quando inaugurado como parte da programação da conferência Rio Eco 92. O trabalho, na quadra 35 do Buriti Sereno Garden, em Aparecida de Goiânia, era formado por 500 colunas de concreto com mais de 2 metros de altura que formava o mapa do Brasil. Da estrutura, sobrou apenas um dos totens e a passarela ao redor que se tornou uma pista para caminhada nos fins de tarde e ponto de venda e consumo de drogas, relatam os moradores.

O artista passou o mesmo drama na obra inspirada em pinturas rupestres de 454 peças em alumínio instalada em um paredão concretado em frente ao Dique do Tororó, um dos pontos turístico mais tradicionais de Salvador (BA) – construído pelos holandeses durante a ocupação na capital baiana em 1624. Ao longo de 10 anos, todas foram roubadas. O trabalho foi um presente de Siron Franco à cidade quando ela completou 454 anos, em 2002. “Acabaram com tudo. Estava feliz que ninguém tinha depredado o monumento na Praça Cívica e quando fui lá para fazer a primeira polida depois de um ano me deparei com aquele estrago”, lamenta.