Chip de celular. Pamonha de sal e de doce, caldo de feijão ou cocada preta. Eletrônicos importados e artesanatos feito à mão. Compra-se ouro. No coração do Centro, quem passa pelo tumultuado cruzamento entre as Avenidas Anhanguera e Goiás quase não percebe o monumento ao Bandeirante, que está ali há 75 anos. Inaugurada no dia 9 de novembro de 1942, meses depois do Batismo Cultural da então nova capital do Estado, ao longo dos anos a estátua passou por modificações em seu posicionamento e altura, viu a Praça Attílio Correia Lima se transformar em via de acesso e acabou incorporada à descaracterizada paisagem da região central da cidade.

Símbolo de um movimento político e urbano que caminhava para o oeste, o monumento foi criado pelo artista plástico Armando Zago como um presente do Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Em termos gerais, a escultura em bronze tem 3,5 metros de altura e ilustra a figura de Bartolomeu Bueno da Silva, armado de bacamarte em uma mão e na outra com uma bateia típica que se usava nos garimpos. “Trata-se de uma homenagem de São Paulo a Goiás. A estátua é fruto do Estado Novo da Era Vargas, da caminhada do progresso para o Oeste, de uma nova política hegemônica. É como se Pedro Ludovico Teixeira fosse o novo bandeirante”, explica o historiador Nasr Chaul, autor do livro Caminhos de Goiás (1997).

No relatório que escreveu em 1935, anos antes da estátua ocupar a praça, o arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima reitera a necessidade de ser erguido “um monumento comemorativo das bandeiras, descobertas e das riquezas do Estado”. O local planejado por ele na época seria onde foi fincada a estaca zero, na Praça Cívica, que passou por mudanças posteriores. A estátua acabou sendo posicionada no principal cruzamento da região, apontada de frente para o oeste, símbolo do movimento migratório do Centro-Oeste do País.

Em partes, o monumento simboliza a iconografia de Bartolomeu, conhecido como segundo Anhanguera, fundador do Arraial de Santana, que se tornaria posteriormente Vila Boa, capital de Goiás. Tombada como patrimônio histórico pela Prefeitura de Goiânia em 1991, para Chaul a imagem tem uma representação dicotômica, já que se insere em diferentes discursos, como um homem da cobiça, matança indígena e representação exploratória, ao lado de símbolo e representação histórica da formação identitária da região. “Enquanto obra de arte, o monumento é pobre, mas só de provocar discussão e promover inquietações, a estátua já serve como algo para ser refletido e analisado na história de Goiás”, explica o historiador.

Oeste

Ao longo das décadas, a estátua passou por modificações, assim como o seu entorno e a Praça do Bandeirante. Em fotos mais antigas da cidade, datadas de 1950 e 1960, é possível ver o monumento em um pedestal mais baixo, no centro da praça com grande área verde. A região sofreu drásticas intervenções em seu traçado inicial, circular, por conta das alterações no sistema de transporte público de Goiânia desde o fim da década de 1970. Com a implantação do corredor viário da Avenida Anhanguera, nos anos 90, permaneceu apenas um pequeno canteiro no qual se encontra o pedestal com a estátua. Em 2003, na requalificação da Avenida Goiás, a estátua foi erguida para a altura dos prédios de seu contorno, além de ter passado por limpeza e restauração.

“O patrimônio cultural se constrói a partir dos valores que conferimos a ele, incluindo dos estéticos, históricos, sociais, religiosos. Nesse contexto, o Centro de Goiânia se torna um verdadeiro tesouro da cidade”, reflete a superintendente do Iphan em Goiás, Salma Saddi. Para ela, o cruzamento das Avenidas Goiás e Anhanguera, local em que se encontra a estátua do Bandeirante, é um dos pontos essenciais do desenho urbano de Goiânia, em que a monumentalidade de cada uma das vias se destaca: a Goiás, como um imenso boulervard com canteiro central e rico tratamento paisagístico; e a Anhanguera como um eixo de forte vocação comercial, trecho urbano que prolonga e une rodovias de acesso à capital. “Destaque-se a relação das arquiteturas dos edifícios localizados nessa confluência e a maneira em que suas implantações valorizam o desenho urbano, com suas fachadas côncavas nas quatro esquinas”, comenta a superintendente.