Não é por acaso que o álbum preferido de Kieran Shudall (vocalista, compositor e produtor da banda inglesa Circa Waves) em 2020 seja After Hours, de The Weeknd, uma espécie de apanhado do melhor que a música pop pré-pandemia conseguia produzir. O novo disco do Circa Waves, Sad Happy, é uma ambiciosa troca de marchas do grupo criado em Liverpool ainda em 2014, uma época em que talvez o indie rock já não fosse o gênero favorito de muita gente.

Mas como nem tudo precisa ser inovador para funcionar, o quarto disco da banda usa a fricção do título (feliz e triste) para colocar um pouco de gasolina no rarefeito fogo do rock’n’-roll pós-Strokes (“nosso primeiro disco era uma cópia descarada deles”, comenta Shudall - ele curtiu The New Abnormal, o novo do Strokes).

Assim como a aparente contradição do título, Sad Happy também manipula certo conflito entre as raízes da banda no rock de garagem e as explorações com baterias eletrônicas. “Sempre fui fascinado por música pop, escuto muito Drake, The Weeknd, presto atenção nos samples do hip hop, e foi nessa direção que eu queria apontar esse disco”, explica Shudall, hoje aos 30 anos. “Basicamente, não queria dirigir para longe das raízes indie, mas acrescentei elementos e sons do pop para criar um amálgama de estilos.”

O disco é dividido em duas partes, e Happy já estava disponível nas plataformas desde janeiro, quando a pandemia ainda era assunto apenas da seção internacional dos jornais das Américas e da Europa. Quando a segunda parte, Sad, chegou, em março, o coronavírus já era uma realidade.

“É um tempo em que o mundo inteiro precisa de música mais do que nunca, todo mundo está precisando preencher as horas”, diz um Shudall blasé, acostumado a ficar em casa quando não está com sua banda na estrada no circuito de festivais. “Honestamente, para mim, e muitos compositores, o isolamento é cool, tendo a ficar em casa sempre e fazer música, isso não é novo para mim.”

Assim, é ao mesmo tempo justificado e surpreendente que a primeira frase de Jacqueline, a música que abre o disco, seja “eles dizem para ficar em casa”. Em Move to San Francisco, um teclado espacial é a base de uma conversa em que duas pessoas discutem sobre a ideia de se mudar para San Francisco, “para onde as pessoas felizes vão”, numa música que, após essa introdução, se transforma em uma festa indie que se encaixaria nos melhores álbuns da banda francesa Phoenix.

Entre bases de guitarra desenhadas para shows de fim de tarde em festivais até investidas em baladas que buscam o grandioso, a banda oferece o seu melhor trabalho até aqui, num álbum profundamente agridoce, desde o título e as primeiras linhas, feito para dançar num mundo que talvez já não exista mais.