As contradições entre o que almejamos e o que de fato somos ou fazemos – ao estilo daquele meme “o que as pessoas acham que eu faço, o que eu gostaria de fazer e o que eu realmente faço” – estão no centro de Hard, comédia brasileira da HBO produzida pela Gullane Entretenimento, que voltou em fevereiro com novos episódios.

Protagonizada pela atriz Natália Lage, que cresceu fazendo novelas e, aos 42 anos, mantém o rosto reconhecível como uma colega de escola de quem nos desencontramos, a minissérie em 12 episódios opõe a vida que uma dona de casa de classe alta vivia, ou pensava viver, e a realidade que ela encara após enviuvar num acidente doméstico.

Lage é Sofia, mãe de dois adolescentes, que abdicou de uma carreira de advogada para cuidar de casa e filhos para um marido emocionalmente distante e ocupado, Alex. Enfurnada numa vida de privilégios e confortos que poderia ser a ambição de muitos, ela só sofre o baque da realidade ao ser informada, em pleno velório, que a empresa de tecnologia que o sujeito dizia ter não existe. O negócio que ela acaba de herdar é uma produtora pornográfica especializada em transmitir cenas de sexo em tempo real – e que, ironicamente, o desgraçado batizou com seu nome sem sua anuência.

Às voltas com dívidas deixadas pelo marido empreendedor, sob risco de perder o enorme teto, ela se vê obrigada a assumir a empresa, na qual tem como colegas sua sogra, Margot (Denise Del Vecchio, outra veterana da Globo), e o arrogante diretor Pierre (Fernando Alves Pinto, de Terra Estrangeira).

O choque entre a vida coxinha e estranhamente casta que Sofia levava e a indústria pornográfica em rápida mudança produz situações engraçadas no roteiro assinado por Danilo Gullane, Juliana Rosenthal, Patricia Leme, Mariana Zatz e Laura Villar e dirigido por Rodrigo Meirelles.

Suas amigas ricas, por exemplo, estão muito mais situadas no mundo e no sexo, a começar por Lúcia (Martha Nowill, a melhor coisa da série), uma advogada bem resolvida que logo a encoraja.

Nas mãos de Sofia, a produtora de que ela tanto desdenha e na qual tenta incutir algo de arte chegará à beira de se transformar em negócio ilegal, ainda que embalado no verniz de exclusividade e inovação marqueteiro, às custas do elenco que, afinal, só quer fazer direito o seu trabalho.

Hard é escrita para ser uma série leve e, embora escorregue na falta de naturalidade em muitos dos diálogos (à exceção de Nowill, que parece saltar da tela tamanha a humanidade de sua Lúcia), funciona bem assim. Há momentos piegas quando envereda para o romance ao parear Sofia com um ator pornô pouco confiante, Marcello (Julio Machado). Mas, em geral, entretém e cativa.

Isso não significa que faltem camadas à série. Ao contrapor uma vida de aparências com a necessidade de se reconstruir e enfrentar os próprios tabus, Hard propõe um questionamento interessante sobre o porquê de tantas vezes trocarmos nossas vocações por expectativas alheias. Intrigante que faça isso usando como instrumento os filmes pornôs. Afinal, não são, eles mesmos, um simulacro de sexo?