O casal Jana Brito, de 37 anos, e Breno Brito, de 49, sentiram na pele o que é hiperconvivência forçada bem antes dos amigos. Ela, influenciadora digital, e ele, empresário, precisaram interromper uma viagem aos Estados Unidos quando a pandemia eclodiu no País no início de março. Voltaram imediatamente ao Brasil e, por segurança, ficaram em quarentena durante sete dias, longe até mesmo dos três filhos: Maria Júlia, 8 anos, Breno, 5, e Pedro, 1. Os funcionários da casa foram dispensados do trabalho e o casal precisou se dividir nas tarefas domésticas.

Para Jana, esse foi um momento de reforçar laços e estabelecer uma nova rotina. “Somos muito parceiros. Então, tiramos de letra essa coisa de estar junto o tempo todo. No fundo, tentamos aproveitar ao máximo esse período de convivência que não seria possível em nossos cotidianos normais”, explica. Claro que ninguém gostaria que a pandemia estivesse alterando tanto a vida de todo mundo, mas o casal tem tentado focar na família, criando momentos bons em meio à quarentena. Para eles, essa é a receita da harmonia.

Assim como os dois, o casal Kelly Goulart, de 29 anos, e Bruno Nunes Fernandes, 30, está em fase de adaptação à rotina a dois 24 horas durante os sete dias da semana. Ela é professora e tem trabalhado em casa; ele é fisioterapeuta. “Estamos casados há apenas um ano, mas namoramos por nove. Pode parecer clichê, mas não tem sido difícil passar tanto tempo junto porque damos muito certo. Um ajuda o outro e a parceria acaba ficando mais fortalecida”, explica Kelly. Ambos encaram a situação atual de forma positiva e como uma oportunidade para cuidar mais de quem se ama.

Por medida de segurança, eles dispensaram a diarista e assumiram as obrigações domésticas. “A gente não chegou a dividir funções, mas como continuo dando aula à distância, ele sempre me apoia”, explica Kelly, que tem descoberto novos hábitos durante esse período. “Nunca fui muito de filmes e séries, mas tenho me rendido ao hábito junto com o Bruno”, conta. A pequena Shiva, um cadelinha da raça shar-pei de 3 anos, tem ajudado a aliviar o estresse durante os dias de isolamento.

Resiliência

Para muitos casais, o isolamento social virou sinônimo de mais tempo para namorar e conversar. Já para outros, a tensão e o tédio são ingredientes poderosos para conflitos. De acordo com a psicóloga Larissa Caramaschi, especialista em terapia de famílias e casais, o período atual exige respostas rápidas, flexibilidade, capacidade de adaptação e muita resiliência.

“Desempenhamos muitos papéis e fazemos muitas coisas, mas geralmente em diferentes ambientes. Com a quarentena, os casais continuam desempenhando papéis, mas dentro de um único ambiente, com as mesmas pessoas e com liberdade restrita de ir e vir”, destaca. Por isso, o terreno é tão propício aos conflitos. Mas saber evitar atritos desnecessários é fundamental para manter a harmonia do casal.

Para Larissa, a notícia de que cidades chinesas registraram recorde no número de pedidos de divórcio após a quarentena pode ser um indicativo, mas não um diagnóstico de como andavam as relações. “Grandes crises provocam grandes transformações. Há revisão de crenças e valores e reavaliação de escolhas e sentido de vida. Uma das maiores privações que estamos vivendo é a de relações de afeto com várias pessoas. E uma das maiores sobrecargas emocionais é justamente a da convivência íntima, de uma relação também afetiva, por um longo período de tempo e um curto espaço de circulação”, explica.

Para ela, os casais podem e devem tirar lições dessa experiência. “É importante ter sabedoria para falar e empatia e gentileza para ouvir”, ensina a psicóloga. Apesar do clima tenso e de incerteza, é importante que os casais exercitem diariamente a paciência. Lembrar-se também dos motivos que fizeram escolher o parceiro para passar o resto da vida – na alegria ou na tristeza, na riqueza ou na pobreza, na saúde ou na doença – também pode reforçar os laços.

Emoções à flor da pele

Ironicamente, uma das maiores reclamações antes da pandemia do novo coronavírus nos consultórios de terapeutas de casais era de que o parceiro não tinha tempo para dedicar à relação. “É fato que a quarentena está mudando as nossas vidas. O isolamento trouxe muitos desafios, mas o mais desafiador tem sido a convivência forçada. Nós nunca tínhamos tempo, vivíamos correndo o dia todo com nossos afazeres e distantes de nossa família, principalmente de nosso cônjuge”, explica a psicóloga e sexóloga Michelle Branquinho.

Agora, com tempo de sobra, os casais precisam lidar com outras emoções. “É importante entender que todos estamos ansiosos e com emoções à flor da pele e precisamos ter controle dessas emoções. Melhorar a comunicação do casal nesse momento é importante. Também é necessário desenvolver empatia. Aprender a se colocar no lugar e entender seus comportamentos pode diminuir os conflitos”, explica Michelle. Para ela, a boa comunicação entre o casal é a base da confiança, do entendimento, do diálogo e do respeito mútuo.