Cada dia em meio a pandemia da Covid-19 é crucial. Os estudos e dados são recentes e estão em constante atualização, o que acaba criando muitas dúvidas. Há algumas semanas que os idosos não são mais considerados o único grupo de risco da doença. Portadores de pelo menos um tipo de comorbidade, como doenças crônicas, também estão mais suscetíveis a complicações graves e, até mesmo, fatais. Diabetes, asma, hipertensão e doenças coronarianas e vasculares cerebrais estão sendo apontadas como fatores de risco e, entre os mais recentes, a obesidade.

“O obeso tem células inflamatórios que predispõem a doenças de uma forma geral. É de conhecimento geral que a pessoa obesa está sim mais propensa a contrair doenças”, explica Leonardo Sebba, médico cirurgião do aparelho digestivo. Além dessa predisposição, a obesidade está ligada a outras enfermidades que podem ser fatores complicadores para quem contrai o coronavírus, como diabetes, hipertensão e dificuldade de respiração. O médico frisa que países que têm grande parte da população com excesso de peso estão atualmente fazendo estudos observacionais em relação a esses pacientes, como Reino Unido, Estados Unidos e Brasil.

Um levantamento recente do Ministério da Saúde mostra que um a cada cinco brasileiros é obeso (cerca de 19% da população) e que mais da metade da população, 55,7%, tem excesso de peso. “A obesidade é uma doença crônica, que exige acompanhamento”, explica o médico. Em um momento como esse, em que as pessoas estão de quarentena em suas casas, algumas coisas podem agravar o quadro de obesidade. O descuido com a alimentação e o sedentarismo, já que as pessoas não estão saindo de casa com a mesma frequência, são alguns exemplos.

“Aqui entra também a ansiedade do momento. O conselho que estamos tentando dar é que a pessoa tente se equilibrar: priorizar a saúde, fazer uma alimentação mais balanceada, evitar bebidas alcoólicas e, dentro do possível, realizar atividades físicas. Mas tudo é relativo, cada caso é um caso”, diz Leonardo. Ele reitera que é possível que a população enfrente outras experiências como a atual, e que nunca é tarde para começar a cuidar da saúde.

O boletim epidemiológico publicado pelo Ministério da Saúde no dia 9 mostra que, do total de óbitos confirmados no País, 75% das pessoas possuíam ao menos um fator de risco. “A obesidade está se sobressaindo como fator de risco adicional”, diz a endocrinologista Adriana Ganam. Ela explica que a adição da obesidade como fator de risco não foi feita desde o início porque, nos primeiros países afetados, como China e Coreia do Sul, essa comorbidade não atinge um número grande da população. “A partir das pesquisas com os casos do Reino Unido, já foi possível fazer a observação: cerca de 70% dos hospitalizados tinham sobrepeso ou obesidade”, explica.

No caso do Brasil, a obesidade não foi o principal fator de risco para pessoas maiores de 60 anos, faixa etária em que está a maioria dos mortos registrados. Mas as doenças que estão normalmente ligadas a ela, sim, como a cardiopatia e a diabetes. Nos dados relacionados à obesidade em específico, o maior número de vítimas fatais era de mais jovens, com menos de 60 anos.

Em Nova York, estão sendo feitos estudos com pessoas que precisaram ser hospitalizadas em estado grave. “Fizeram uma avaliação com 2 mil pacientes e a prevalência de obesidade gira em torno de 42% dos casos dos hospitalizados”, diz. A endocrinologista explica que, muito provavelmente, os pacientes obesos que chegam ao estado grave pelo coronavírus também possuem síndrome metabólica, pré-diabetes ou diabetes, e algum grau de síndrome cardiovascular. “Essas situações podem favorecer uma evolução mais grave da doença e risco de hospitalização. As conclusões ainda não são possíveis de ser afirmadas, mas, no caso dos Estados Unidos, se o IMC (Índice de Massa Corpórea) é maior que 40, o risco de complicações é maior do que para outras pessoas”.

Cuidados e atenção especial

É difícil pedir calma quando se está vivendo uma pandemia, mas, de uma maneira geral, a recomendação é não se desesperar. “Agora não é a hora de iniciar dietas restritivas para perda de peso rápida, como a low carb, por exemplo”, observa a endocrinologista Adriana Ganam. No entanto, um ajuste na alimentação pode ajudar no aumento da imunidade e em uma perda de peso lenta e gradual. “Aumentar a ingestão de frutas e vegetais, consumir boas gorduras como azeite extra-virgem e castanhas e aumentar ingestão de fibras”, recomenda.

“Com uma dieta com menos quantidade de açúcar e gordura em excesso, é possível ter em poucos dias bons resultados, como a redução dos níveis de glicose e triglicérides”, explica. No caso de pacientes obesos que sofram de ansiedade e compulsão alimentar, ela afirma que existem medicamentos que auxiliam no controle, sempre com acompanhamento médico.

Para quem apresenta os sintomas do coronavírus, a endocrinologista afirma que é fundamental procurar ajuda médica. “Mesmo que por telefone, é importante que não se demore a procurar ajuda médica. Os órgãos competentes, como o Ministério da Saúde, já estão dando orientações por telemedicina, alguns planos de saúde também. É só dar uma pesquisada”, frisa.

O médico Leonardo Sebba atenta para uma parcela da população que tem obesidade, aquela que passou pela cirurgia bariátrica. “No início da epidemia, espalhou-se a informação de que os pacientes bariátricos tinham um fator de risco maior para a Covid-19, quando, na realidade, é exatamente o contrário: os operados que já passaram pela perda de peso e que fizeram o devido acompanhamento estão sem diabetes, sem hipertensão e com melhor quadro respiratório”, explica. “É claro que essas pessoas precisam estar com os exames e a saúde em dia. Assim como a obesidade é uma doença crônica, a cirurgia é um tratamento e o acompanhamento é necessário.”

Brasileiros e obesidade

Mais da metade da população, 55,7%, tem excesso de peso.

Um em cada cinco brasileiros, cerca de 19%, é obeso.

Para avaliar a obesidade e o excesso de peso, é considerado o Índice de Massa Corporal (IMC).

Nos últimos 13 anos, houve um aumento de 67,8% no número de obesos no País.

O crescimento da obesidade foi maior entre os adultos de 25 a 34 anos e 35 a 44 anos.

Em 2018, as mulheres apresentaram obesidade ligeiramente maior, com 20,7%, em relação aos homens, 18,7%.

Fonte: Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas, de 2018, do Ministério da Saúde.