A ideia original era escrever sobre Raul Seixas. O pontapé foi uma visita ao crítico musical Tárik de Souza, verdadeira enciclopédia viva da música no Brasil. “Ele tem um arquivo maravilhoso. Recorta tudo o que é jornal com notícias sobre música. Fui em busca da pasta do Raul, mas acabei levando uma bronca – ‘ninguém aguenta mais falar de Raul Seixas’, ele me disse – e sugeriu a Nara Leão, uma personagem intrigante, mas ainda não tão explorada”, contou, em entrevista ao POPULAR, o jornalista Tom Cardoso.

A provocação deu origem à biografia Ninguém Pode com Nara Leão (Editora Planeta), escrita por Tom com prefácio de Tárik de Souza. Em 240 páginas, o jornalista resgata a intimidade da mulher que, apesar da imagem de timidez e calma ligada aos primeiros anos da bossa nova, revolucionou a cultura brasileira e foi símbolo de resistência à ditadura militar. “Nara certamente foi uma das artistas mais importantes e influentes da cultura brasileira, não só pela sua obra, mas pelo que representou para a mulher e a sociedade como um todo”, explica.

Com exceção da irmã Danuza Leão e do cantor e compositor Chico Buarque, Tom Cardoso entrevistou quase todos os personagens mais importantes ligados à carreira e à vida de Nara. O livro tenta desmistificar a artista e explorar detalhes pouco conhecidos do público. A imagem da moça de joelhinho bonitinho, frágil e tímida, que ofereceu o apartamento da família para que a turma se reunisse para criar a bossa nova, é desconstruída ao longo da narrativa.

Tom apresenta passagens da infância de Nara, marcadas pela angústia e reclusão, detalhes da inimizade com Elis Regina, dos famosos encontros no apartamento da Av. Atlântica, onde a bossa nova ganhou corpo, do relacionamento com Ronaldo Bôscoli, da amizade com figuras como Vinicius de Moraes, Roberto Menescal e Ferreira Gullar, por quem nutria admiração mútua e teve um affair. No livro, ele relata que Nara inclusive chegou a sugerir que Gullar largasse a mulher e os filhos e viajasse com ela pelo Brasil.

Vencedor do Prêmio Jabuti 2012 e autor de biografias elogiadas sobre personagens como o jornalista Tarso de Castro, que fundou o Pasquim, e o jogador Sócrates, Tom Cardoso abre a biografia com um dos episódios mais notórios da vida de Nara: a desavença com Elis Regina. A ruidosa briga com Maysa também é lembrada. “Apesar de começar o livro com isso, a Nara fez mais amigos do que inimigos. Ela foi a primeira artista de sua geração a ridicularizar a passeata contra a guitarra elétrica, liderada por Elis”, conta, sobre a briga das duas.

O livro também acompanha o relacionamento de Nara com o cineasta Cacá Diegues, na época em que se aproximou do Centro Popular de Cultura (CPC) e dos expoentes do cinema novo. Ele foi o responsável por apresentar a ela um outro mundo musical, fazendo-a se impressionar com artistas como Carmen Miranda, Ary Barroso e Luiz Gonzaga. Cacá chegou a dizer que a cantora ajudou decisivamente a mudar o jeito da mulher brasileira, a libertá-la de preconceitos antigos, a dar-lhe um novo sentido e um novo modo de estar no mundo.

A conscientização política de Nara Leão se acelerou com a aproximação da turma. Ela foi gravar sambas de temática social. Seu segundo álbum, Opinião de Nara, de 1964, inspirou diretamente o maior espetáculo musical da época, Opinião, combatido pelo regime militar. Em 1966, ela chegou a dar entrevista ao Diário de Notícias dizendo que o Exército brasileiro não servia para nada e deveria ser extinto. Entrou para a história, como a primeira estrela da MPB a falar abertamente e de forma mais contundente contra a ditadura militar.

Em ritmo de thriller

Um dos destaques do livro Ninguém Pode com Nara Leão, do jornalista Tom Cardoso, é o ritmo de thriller da leitura. O material parece ter sido prensado para uma adaptação para a TV ou cinema. “Quis realmente fazer um livro com ritmo, pensando na venda dos direitos para o audiovisual. Já tivemos filmes e minisséries sobre Elis, Tim Maia e Maysa, mas pouca coisa sobre Nara. A vida dela dá um grande filme”, explica o autor.

Ao contrário de outras biografias sobre Nara no mercado, como Nara Leão – Uma Biografia (2001), de Sérgio Cabral, o novo livro retrata também o período em que ela decidiu dar mais tempo aos filhos, ficou afastada dos shows e passou a cursar Psicologia. Ele faz um mergulho na intimidade da artista. Nos anos 1980, Nara passou a ter dores de cabeça, desmaios e confusão mental, em episódios cada vez mais recorrentes. Foi diagnosticada com um tumor no cérebro e morreu, com apenas 47 anos, em 1989.

Nara em cinco atos

1. A despeito do ar de desencanto e da quase displicência, Nara participou ativamente dos mais importantes movimentos musicais surgidos a partir da década de 1960 – e saiu de todos eles sem se despedir.

2. Tratada como bibelô pelos homens da bossa nova, deixou o movimento para se juntar à turma politizada do CPC e do cinema novo.

3. No disco de estreia, recusou-se a pegar carona no sucesso da bossa nova e gravou um álbum com sambas de Cartola, Zé Kéti e Nelson Cavaquinho.

4. Lançado sete meses após o golpe de 1964, Opinião de Nara foi o primeiro trabalho de uma estrela da MPB a colocar o dedo no nariz da ditadura. Um disco-manifesto, inserido no contexto político-social e em sintonia com o que se ouvia nas favelas do Rio, marginalizadas e discriminadas pela política higienista do governador Carlos Lacerda.

5. Foi ela, em pesquisa musical pelo Brasil, quem abriu as portas do Sudeste para Caetano, Gil, Gal e Bethânia, que foi convocada para substituí-la no show Opinião.