Ela desistiu. Na última live sertaneja, quebrou o isolamento social, pegou roupa de cama e foi dormir na casa da mãe. O apartamento, antes silencioso, virou um inferno por causa do barulho dos vizinhos. “Desde o início da quarentena, minha relação com os vizinhos tem sido um horror. Muito barulho e pouco respeito. Volume do som altíssimo em qualquer horário. Esquecem que moram em edifício e agem como se estivessem em um domingo à tarde”, lamenta Márcia, 40 anos, moradora de prédio no Setor Bueno.

Por medo de represálias – inclusive violência física –, ela pediu à reportagem que não tivesse o verdadeiro nome revelado. A tensão contagiou o condomínio e ela já perdeu as contas de quantas vezes tentou negociar com os vizinhos para que diminuíssem o barulho. Até a polícia foi acionada, mas o problema persiste. “Piora nos horários das lives mais comentadas. Cantam e gritam como se não houvesse ninguém que pudesse ser incomodado”, reclama. Até sons de berrantes são ecoados da janela de apartamentos de Goiânia durante transmissões sertanejas.

Com a quarentena do novo coronavírus, casas e apartamentos acabaram se transformando em escritórios, escolas e até academias. Com tantas pessoas em casa ao mesmo tempo, é natural que os ruídos aumentem, ou pelo menos a percepção sobre eles. Com isso, a convivência forçada tornou-se uma bomba-relógio. Morador de um prédio de 15 andares com oito apartamentos por pavimento, o bancário Pedro Paulo Gomes Alves, 27, tem vivido dias de calvário.

Os vizinhos do andar de cima são os responsáveis pela sinfonia de ruídos a qualquer hora. “Aqui nunca foi um lugar silencioso, mas, no cotidiano normal, passo a maior parte do tempo fora de casa. Com a quarentena, o barulho aumentou e eles começaram a fazer ruídos de madrugada”, conta o rapaz, que trabalha em casa nesses dias. Pedro Paulo já tentou conversar, pediu ajuda para o síndico e até já registrou boletim de ocorrência na polícia.

O bancário mora com a mãe, de 60 anos, hipertensa e parte do grupo de risco da pandemia. “Até entendo que não deve ser fácil ter crianças presas dentro do apartamento e o barulho durante o dia não incomoda tanto. O ruim é de madrugada, quando parece que os ruídos aumentam. Correm pela casa. Como tenho de trabalhar no dia seguinte, acordo péssimo”, reclama. As confusões com os vizinhos até o fizeram pensar em vender o apartamento.

A intensa convivência fez realmente aumentar o número de queixas. As reclamações mais comuns estão relacionadas ao barulho de crianças, móveis arrastados, obras, música e TV em volume alto, desrespeitando horários de silêncio previstos em lei e normas e regimentos internos.

Até mesmo condomínios horizontais, onde se costuma ter paz e tranquilidade, têm sentido o desconforto e o incômodo do barulho. “Temos um vizinho que escuta música sertaneja em volume altíssimo dia e noite quase todos os dias. São uma família detestável. A gente chama a segurança, eles vêm, medem o volume, sempre acima do permitido, vão lá, pedem para baixar. Dez minutos depois, o volume está altíssimo de novo”, conta a atriz Lian Tai, 37. Quem mais sofre com a bagunça é a filha de Lian, de 1 ano. Vizinhos estão se unindo para escrever uma carta coletiva à administração do condomínio de alto padrão para tentar de maneira civilizada resolver o problema.