Felipe saiu do grupo. A mensagem automática no grupo de WhatsApp da família parecia ter mais significado do que todas as palavras escritas em discussões infindáveis. “Resolvi sair porque me senti ofendido por alguns parentes em relação a questões políticas. Algumas opiniões e argumentos eram sérios demais para serem levados na brincadeira”, desabafa o estudante de Odontologia Felipe Souza, de 22 anos, que tomou a decisão de abandonar o grupo criado para facilitar a comunicação entre os familiares.Ele não está sozinho no movimento de abandono. Triste por ver pessoas próximas manifestarem ideias contrárias ao que mais preza, muita gente decidiu se afastar. Uma pesquisa recente divulgada pelo Instituto Datafolha mostrou que a polarização política, mesmo um ano depois da eleição presidencial, ainda provoca rusgas nas relações. Segundo o levantamento, realizado entre os dias 5 e 6 com 2.948 pessoas em 176 cidades brasileiras, um em cada cinco brasileiros deixou de seguir ou bloqueou o perfil de um amigo, familiar ou empresa por discordar de posições políticas. Além disso, uma em cada quatro pessoas saiu de algum grupo do WhatsApp para evitar discussões.Prova de fogoÉ claro que, ao clicar no botão sair, algumas consequências são imediatas. O estranhamento é uma delas. “Alguns parentes chegaram a perguntar o porquê de eu ter saído. Já outros não se importaram, enquanto alguns deram razão para a minha atitude”, conta Felipe, que não só deixou de publicar algo na rede social como chegou a postar algo e rapidamente apagar para evitar mais discussões. Invenção valiosa para aproximar os parentes, os grupos de WhatsApp parecem mesmo ter amplificado – ou pelo menos ter deixado mais às claras – os conflitos familiares.Para muita gente, a noite de Natal, quando a família tradicionalmente se reúne, foi uma prova de fogo. Cruzar o abismo político instalado não foi tarefa das mais fáceis. “A internet é terra de ninguém e ali se encontra de tudo. É mais fácil criticar e condenar alguém estando distante dele e escondido atrás de um telefone celular ou do teclado de um computador”, ressalta o psicólogo e psicoterapeuta Alziro Zarur de Azevedo Machado, sobre o papel do WhatsApp e redes sociais nos conflitos.Alziro explica que faz parte do comportamento humano evitar confrontos que colocam em risco o bem-estar físico e emocional. “A primeira resposta diante do perigo é quase sempre a esquiva ou a fuga. Cada um tem o direito de viver segundo suas crenças e valores e isso é muito pessoal. Mas a tolerância é uma nobre virtude. Opiniões diferentes nos desafiam e deveriam ser encaradas como oportunidade de crescimento e convite a repensar nosso sistema de crenças e valores”, destaca.De acordo com o Datafolha, as respostas dos entrevistados da pesquisa referem-se a comportamentos adotados nos últimos 12 meses, entre as pessoas que têm conta em redes sociais, como Facebook, Instagram, Twitter e WhatsApp. Apesar da cisão familiar – 27% saíram de algum grupo de WhatsApp –, 77% disseram acreditar que as redes sociais têm um lado positivo ao ajudar a dar voz a grupos normalmente deixados de lado pela sociedade. Resta saber quem está disposto realmente a ouvir.