O professor de português Ricardo Pereira, de 31 anos, não está sozinho. No apartamento em que mora, ele conversa todos os dias com amigos, familiares e dá aulas para um grupo de alunos sem quebrar a recomendação de evitar aglomerações. Nada de churrasco, de balada, de sala de aula ou de visitar os pais em Brasília. Ele precisa apenas do celular ou de um computador. Em tempos de isolamento social por conta da pandemia do novo coronavírus no mundo, reuniões virtuais tornaram-se importantes aliadas.

Momentos que antes seriam naturalmente compartilhados com toques e abraços, são agora intermediados por smartphones ou computadores. “Vejo como uma oportunidade para, apesar da distância física, apertamos os laços”, comenta Ricardo. Agarrar-se a hábitos novos tem sido um alívio em meio à doença. Especialistas recomendam manter a rotina de alguma maneira. Assim tem sido com os viciados em levantar ferro, que fazem aulas on-line, com músicos tocando em lives, com pessoas comemorando aniversários e outros fazendo festas. Tudo pela internet.

“As ferramentas da internet ajudam muito, permitem que juntemos amigos e familiares em uma só conversa, o que aumenta a interação e diminui a distância física. Acho até que após essa fase passaremos a valorizar ainda mais a presença do outro”, acredita Ricardo, que usa o Instagram para colocar assunto em dia. Rotineiramente, ele também tem encontro com os alunos às 19 horas. “É isso que devemos e podemos fazer agora: mudar a sala de aula, que passa a ser virtual. O que não podemos é ficar sem educação”, completa.

Ricardo conta que antes do problema de isolamento forçado usava as redes sociais mais para o trabalho e assuntos pontuais. Juntar os amigos para uma reunião on-line era algo raro. Mas na segunda-feira, ele reuniu amigos para uma videoconferência para comemorar o aniversário de uma amiga. “Infelizmente, ela não ganhou meu abraço. A internet é um facilitador, mas nada substitui o toque, por ora guardado. Todos estamos ansiosos para isso terminar”, destaca.

Sem distância

Quem vem usando bastante a internet em conversas por vídeo é o artista plástico Ritchelly Oliveira, 26. Quando acorda, a primeira coisa que faz é uma chamada coletiva pelo Instagram com a irmã, que mora no interior, e com a mãe, que reside na Espanha, país com mais de 3.400 vítimas do novo coronavírus. “Isso tem me deixado muito preocupado e sensibilizado. Muitas vezes ligo duas vezes no dia. Essa é a maneira que temos para nos confortamos”, diz.

Além da família, o artista mantém comunicação com os amigos em videoconferências – teve até uma festa virtual de aniversário nesta semana – e com outros colegas de profissão para discutir como a fase tem impactado na produção deles. “Durante o dia, estou sempre em ligação de vídeo. Cada um tem de encontrar sua forma de não se isolar por completo. A internet tem sido importante para buscarmos saídas para esse afastamento físico que se faz necessário.”

Conversas por vídeos também têm sido a maneira que a advogada Allinne Garcia, 36, encontrou para minimizar a saudade dos dois filhos, um de 9 e o outro de 6, e do marido, que estão isolados numa fazenda perto de Barra do Garças (MT). Assim que começou essa pandemia e a suspensão das aulas, ela mandou as crianças para o lugar onde passam férias e é a casa dos avós para evitar risco de contaminação. “Como trabalho com muita gente e ainda não tinha entrado em rotina de home office, fiquei com medo de se contagiarem”, conta ela, que sempre fala, antes do jantar, com parentes pelo WhatsApp.

Agora trabalhando em casa, Allinne também vem fazendo videoconferências com colegas de escritório e clientes. “Diariamente fazemos reunião de manhã e outra no final do dia para balanço. A gente precisa manter essa comunicação e não são conversas longas. Nesse tempo, fazemos um alinhamento de atividades e acompanhamento e vem funcionando bem”, conta ela, que gerencia uma equipe de cem advogados em cinco cidades.