"O tempo voa e não volta. Oferecê-lo às pessoas queridas é uma forma de mostrar o quanto me importo com elas”

Era um pacote cuidadosamente coberto por um pano de prato xadrez. Alessandra estendeu os braços e o entregou a mim: “Lembrei que você gostava, então fiz e trouxe para que pudesse experimentar minha receita!”.

Ao abrir o recipiente, o cheiro de pamonha frita ultrapassou as barreiras da máscara no rosto e me levou a sorrir com os olhos. Agradeci feliz e, ao mesmo tempo, constrangida, por ter dado trabalho a ela.

“Puxa, não precisava se incomodar!”, disse. Alessandra levara a iguaria à pracinha onde vamos passear com nossos cães diariamente, fazendo todo o possível para vedar a embalagem e impedir que a pamonha esfriasse.

Carinhosamente, ela me corrigira: “Não foi incômodo algum Na verdade, quis te dar um pouco do que tenho de mais precioso. Sabe o que é?”. Quando respondi que não, ela disparou: “O tempo. Esse é meu bem mais valioso”.

Ao fazer a pamonha com suas próprias mãos, Alessandra tirara algumas horas do seu dia para se dedicar aqueles que gosta. “O tempo voa e não volta. Oferecê-lo às pessoas queridas é uma forma de mostrar o quanto me importo com elas”, explicou.

Para aprender o valor do tempo, Alessandra precisara passar por uma situação extrema: “Minha mãe teve um câncer agressivo, ano passado. Decidi me demitir do emprego, para poder acompanhá-la em seus últimos meses de vida”.

Engenheira, ela trabalhava em uma multinacional e tinha reuniões o dia todo. Ao saber do diagnóstico da mãe, falou com o marido que queria estar mais perto dela durante a doença. Ele a apoiou e Alessandra deixara o trabalho, para se mudar para a casa materna.

“Passamos cinco meses grudadas. Ríamos e chorávamos juntas. Eu a ajudava a tomar banho, a trocar de roupa. Penteava o cabelo dela, passava perfume. O melhor era quando ficávamos abraçadas, caladinhas”, lembrou.

Foi num desses abraços, sentadas no banco da varanda, ouvindo a chuva que caía no mês de dezembro e o vento que fazia o sino dos anjos balançar e ecoar seu tilintar pelo jardim, que Alessandra vira a mãe respirar pela última vez.

“Sou grata a Deus por esse momento. Quando ela partiu, eu estava ao lado dela. Não desperdicei nem um segundo do tempo que tínhamos para partilhar. E resolvi não desperdiçar mais. Cada minuto é gasto com muita consciência”, afirmou.

Ela tem noção do privilégio do qual desfruta, pois poucas pessoas podem se dar ao luxo de abandonar um emprego bem remunerado para se dedicar à família. No entanto, Alessandra refletira que muitas vezes a escolha é mais simples e, ainda assim, optamos por renunciar ao nosso tesouro.

“Quando direcionamos pensamentos a pessoas tóxicas, repetimos atitudes que nos fazem mal ou permanecemos em situações que não nos acrescentam nada, estamos jogando nosso diamante na lata de lixo”, alegou.

“E você, o que tem feito do seu tempo?”, me questionou Alessandra. Diante da provocação, fui abrigada a confessar que não estava valorizando minha joia preciosa tanto assim, e que precisava dar a ela destino melhor.

Ao voltar para casa, escolhi a louça mais bonita para servir a pamonha, peguei a cerveja especial que estava há semanas guardada na geladeira e tomei numa taça de cristal. Brindei à amizade e degustei cada pedaço do meu presente. “A vida é tão rara”, já dizia Lenine, e não pode esperar.

A cronista escreve quinzenalmente neste espaço, às quartas-feiras