"Do que a gente tem medo de fato ao longo de toda vida, sempre que uma situação nos coloca nesse lugar do desamparo?”

Falavam de angústia. Contou que experimentava uma sensação de incômodo, vazio e medo, mesmo quando tudo estava aparentemente tranquilo, nenhum sobressalto ou prognóstico sinistro, ainda assim, a perturbação que a fazia tentar distrair-se de si mesma, conversando internamente com esse apelo conflituoso para lhe entender as motivações e apaziguá-lo. Muitas das vezes, em vão. Melhor aceitar, respirar fundo, seguir com o que fosse preciso impregnada de uma ausência que insistia em se fazer presente na existência concreta.

- É medo da morte, no fim das contas – arriscou. Tantas idas e vindas, reviravoltas, metáforas, indefinições, para deparar-se com o inevitável.

Passado algum tempo, veio a questão. Curiosa questão que lhe foi apresentada assim.

- Estava pensando sobre os nomes que damos para a morte ou aquilo que a gente confunde com morte, chama de morte mas não é a morte. Do que a gente tem medo de fato ao longo de toda vida, sempre que uma situação nos coloca nesse lugar do desamparo? O que é a morte no pensamento e que reverbera no corpo, porque a tal da morte de que a gente pensa ter medo, ninguém morreu pra saber se é bom ou se é ruim, vai que seja muito gostoso... eu penso que a morte temida é o desamparo.

Desamparo decorrente da prematuridade humana quando se apresenta a um mundo de riscos e desafios sem recursos para sequer saber do corpo a partir do qual se construirá uma identidade única. Marca profunda que pode bem ser esse inexplicável e persistente assédio da carência. Sim, desamparo é morte em vida.

Muitas experiências de morte até que a tal da morte de todos desconhecida prevaleça. Desamparo, abandono, dor, agonia, medo, perdas, inércia. Morrer em vida. Não viver. Não ser o que se é. Abafar, sufocar, negar, encolher-se na covardia, ter vergonha, não ousar, não se permitir, atrofiar.

Morte é ficar paralisado. Morre quem não sonha, não muda, não se movimenta em todos os sentidos.

Morte matada, terrível, violenta, brutal.

Acidente. O absurdo da partida precoce de quem reluzia vitalidade e alegria. Difícil acreditar, quanto mais compreender. Apenas a realidade de uma ruptura sem volta, definitiva.

Morte morrida, um pouco a cada instante, o desgaste lento, as funções e desempenho sem a mesma eficiência, as doenças, o transcurso do tempo que se impõe sobre a vida.

Mas há o momento. Enfim algum alívio para o que nem sabia ao certo ser a causa de aflição. Sorriu. O que temos pra hoje?

Lembrou dos ipês de buquês cor-de-rosa exuberantes em contraste com o azul do céu sem nuvens. Quase pôde ouvir o som do bambu tocado pelo vento. Retomou brilho de estrelas, donas do espaço enquanto a lua cede lugar, lua que daqui a pouco será rainha a iluminar, toda cheia, as noites frias de inverno. Aconchego de abraço, amor.

Até na espera, na incerteza, a poesia do agora.

O sol de meio-dia nas plantas desejosas de luz confirmou a intensidade dos ciclos. Instante pleno para apreciar.

A cronista escreve quinzenalmente neste espaço, às quintas-feiras