"Domingo e o sino da igreja próxima me desperta. Não me queixo. Gosto do bimbalhar de um sino. Traz uma emoção de infância, suponho”

Quinquagésimo segundo dia. Como se conta o tempo quando os dias são feitos com a matéria indiferente do isolamento? Das distâncias entre os corpos? Das máscaras, luvas, calças e mangas compridas mesmo em um momento em que, na rua, o único corpo humano seja o nosso? Das noites vazadas na frente de uma tela com imagens em movimento nesse momento de movimentos impossíveis? Do cotidiano que ficou lá atrás sem poder entrar aqui dentro? Da chegada de um futuro que talvez seja pior do que o desnaturado presente? Como se conta o tempo quando os dias são feitos com a matéria obsedante das mesmas notícias, dos mesmos assuntos, e quando o amanhã não será outro dia, mas outra vez o mesmo dia, com as notícias falando, ainda que de formas diferentes, da mesma necropolítica dos sempre inacreditáveis atos e afirmações desse desgoverno?

Quinquagésimo quarto dia. Hoje o dia começou mal. Um corpo de mulher estendido na calçada, e ninguém a seu lado. Moradora do prédio na frente do meu, mais à direita, e ninguém a seu lado. O corpo já coberto com um tipo de papel metalizado prata, de onde emergia a mãozinha inerte, e ninguém a seu lado. Na calçada, três policiais cercaram o espaço, ali ficaram até o corpo ser recolhido, e ninguém a seu lado. Na pandemia, morre-se também de solidão.

Quinquagésimo sexto dia. Domingo e o sino da igreja próxima me desperta. Não me queixo. Gosto do bimbalhar de um sino. Traz uma emoção de infância, suponho. O cachorro da vizinhança late alto e isso, sim, é irritante. Paciência, não perderei meu humor. Converso com filhos e netos pela ligação com vídeo, a alegria. Depois, lá vou eu pôr roupa na máquina. Sem pressa. Felipe fará uma pasta a putanesca, tomaremos nosso drinque, e depois veremos o que a tarde nos trará.

Quinquagésimo sexto dia. Aldyr Blanc escreveu antes: “O Brazil está matando o Brasil”. E Sergio Sant’Anna, em seu último post no Facebook: “O Brasil é um filme de terror”.

Quinquagésimo oitavo dia. Outro dia choveu. Chuvinha fraca. Céu nublado. Dia bom para ficar em casa, pensei, se tivesse a opção de sair. Sem opção, até um dia aconchegante é vão. Já hoje é um belo dia do outono. Penso: esse grandioso céu puro azul de São Paulo que em maio costuma ser o céu de um dia comum, na pandemia também é vão. Não, penso em seguida. Mesmo vista de uma janela, a beleza nunca é vã. Admire-a ou não, ela está lá. Melhor logo reconhecê-la e fazer dela algo também seu.

Quinquagésimo nono dia. A cada absurdo, a expectativa acelera: ele cai agora? Já fizemos essa pergunta tantas vezes que não deveríamos alimentar ilusão nenhuma. A panela queima como capim seco no fogo, e os cozinheiros se justificam: enquanto a coisa não se alastrar pela casa toda, aguentemos. E a vida confinada segue. Meu cabelo cresce e me agrisalha. Caso não exista o verbo agrisalhar, relevem minha falha. Num confinamento é preciso relevar tanta coisa, que mais uma terá menos que o peso de uma pluma.