O mundo pegando fogo, enquanto ela flanava displicente, degustando minúcias de aflições inventadas. Distraía-se para suportar.

Queimadas, aquecimento global, extrema-direita elevando a temperatura política sem a menor compostura, baixarias virulentas em redes sociais, calor abafado, horizonte cinzento de fuligem, ar seco e quase irrespirável. Era estratégia de sobrevivência tentar um escapismo na intimidade das emoções, ao delirar com amores impossíveis. Suspiros doces para afugentar o amargo dos dias.

Não era alienada, ao contrário, acessava informações que sinalizavam retrocesso e penúria, até mesmo o horror da desumanidade em larga escala, o que estava ruim tendia a piorar. Tudo excessivo e brutal demais para delicadezas.

Ocorre que, dada a devaneios e esperanças, não podia evitar sorrisos e encantamentos, muito besta, isso sim, era aquela criatura descolada do real. Flora Própolis paranormal, flertava com as folhas secas bailando em redemoinhos, douradas e leves, as flores amarelas, roxas, brancas, cor-de-rosa, a mais linda metáfora da resistência, da vida se propagando quando a própria natureza conspira contra. Descarada em seus deslumbramentos, perdeu a vergonha do lugar-comum ou de se repetir.

Porém, se pressionada, saberia argumentar. Que mal havia em imaginar-se estrela de uma produção recente do cinema argentino, que tem público garantido justamente por focar nas relações pessoais, sem compromisso com o factual de uma derrocada deprimente? Inflação de mais de 50% ao ano, desemprego, crise, recessão, uma tristeza as notícias sobre o país vizinho.

O refresco vem em dramas e comédias da leva nem tão recente de filmes sobre desejo, encontros e desencontros amorosos, com direito a cenários e figurinos de bom gosto. Decoração de classe média alta, na qual os objetos não são gratuitos, ao contrário, espelham as viagens de personagens intelectualizadas, cujos diálogos propõem reflexões filosóficas, desprovidas de pretensão e marcadas pelo humor. Cenas ainda mais deliciosas pelos brindes de vinhos que supomos das melhores cepas. Se o cinema argentino pode, convencia-se, ela também podia, como não? Valei-nos, Ricardo Darín!

É de Darín (ou melhor, de Marcos, seu personagem) uma fala ótima de Um Amor Inesperado (El Amor Menos Pensado), dirigido por Juan Vera e que se desenrola em torno dos anseios, dúvidas, descobertas e decepções de um casal que já passou dos 50, metade deles casados, e se defronta com o tédio e a ausência de paixão pesando na atmosfera de uma estabilidade que nada faria supor ruir. A fala é sintomática, em tempos líquidos nos quais “a fila anda” e anda rápido, atropelando quem não consegue se adaptar ao ritmo frenético de um prazer impositivo.

“Não há nada mais pornográfico que a felicidade.”

Libertária, desafiadora, a determinação em ser feliz. Quanto mais aperto e agrura, mais agudas a incompreensão e a rejeição, mais absurdos os rumos trilhados, maior a disciplina em garimpar e lapidar sentimentos gratificantes, a alegria das banalidades, as surpresas no caminho. Cair também em tentação, pagando o preço de dores antevistas, porque santidade não é para humanos, além de ser uma pretensão muito chata.

Mergulhar no fundo do poço autodestrutivo de não se permitir viver o que está ao alcance, em mórbida afirmação de desconsolo, tristezas e tragédias, por mais insistente que se mostre o assédio deles, isso é que não. Arderia sim, mas de paixão pela vida.