"A Tirania dos Especialistas aborda a traição da democracia por meio de uma elite adoecida que tomou de assalto parcelas do poder e contaminou muitos de nós com uma espécie de sífilis filosófica. Passamos a ver o mundo não como ele é, mas como gostaríamos que fosse”

A Tirania dos Especialistas (ed. Civilização Brasileira) é mais do que uma mera reunião de ensaios de Martim Vasques da Cunha. Autor do incontornável A Poeira da Glória, o filósofo político explicita o eixo reflexivo que seguirá desde a organização dos textos do volume. Conceitos indispensáveis para esse percurso são paulatinamente apresentados ao leitor, que logo se familiariza com pensadores tão díspares quanto Michael Oakeshott, Paulo Arantes, Daniele Giglioli, René Girard e Christopher Larsch. O clímax se dá no ensaio As Ruínas Circulares, em que o autor eviscera as ideias totalitárias daquele que “educa” a casta de “anti-indivíduos” que infestam a noite bolsonarista — Olavo de Carvalho.

O livro aborda a traição da democracia por uma elite adoecida que tomou de assalto parcelas do poder (cultural, acadêmico, político etc.) e contaminou muitos com uma espécie de sífilis filosófica. Passamos a ver o mundo não como ele é, mas como gostaríamos que fosse; há uma “revolta contra a própria estrutura da realidade”.

Vasques da Cunha recorre a conceitos-chave para identificar os sintomas do adoecimento: temos Giglioli e o “mecanismo que regula hoje todas as relações (...): o de apresentar a vítima como ‘o herói do nosso tempo’”; a “ilusão tecnocrática” devassada por William Easterly (responsável pela tirania dos experts); a “pleonexia” conforme Eric Voegelin (“o desejo de poder, misturado ao desejo de conhecimento, que faz o filósofo cair na ilusão de que (...) pode transformar a Terra em uma ‘casa bem-arrumada’”); e o “naufrágio espiritual” segundo Mark Lilla (o ato intelectual de se ocupar só das “ruínas de um passado inexistente, mas que (...) influenciará um futuro inatingível”).

O “especialista” distorce e sevicia a realidade para melhor adequá-la ao seu projeto de poder, desprezando a individualidade e as necessidades do outro. Entre projetos totalitários e/ou apocalípticos, à esquerda e à direita, no gradativo isolamento da democracia “em suas próprias entranhas”, na prisão da “Segunda Realidade” e nas tentativas malfadadas de controlar a História ou mesmo de prostituí-la, salta aos olhos a incapacidade dos “intelectuais de gabinete” de “aceitar as coisas como são” e “admitir a verdadeira tragédia do nosso tempo: a de que estamos abandonados, sem guia para nos orientar”.

Logo, temos de reconhecer o conteúdo trágico intrínseco a qualquer decisão política e agir responsavelmente. Há que se evitar a destruição do “homem em função de uma humanidade abstrata que jamais existiu”, exceto nas “mentes descoladas da realidade” de gente como Ruy Fausto, Lilla, Enzo Traverso e Arantes. Olavo de Carvalho não é diferentes, pois “quer substituir essa elite que perverteu a casta do espírito por uma outra”, trocar “seis por meia dúzia”. A corrupção de uns e outros é da mesma espécie. Todos querem o trono no reino da pleonexia, todos ignoram que, em “sociedade livre, o conhecimento só pode existir se for caótico, desorganizado, fragmentado e disperso, chegando a alguma coerência somente por meio de um processo decisório que venha ‘de baixo para cima’, jamais por meio de uma casta específica” — seja ela qual for.