"Quem de fato quer liderar, no plano global, não abre mão do controle de setores fundamentais da sua economia.”

Nas últimas edições desta coluna, vimos como a China, potência emergente, está desafiando os Estados Unidos pelo controle do futuro próximo do planeta. Muitos temem até uma possível guerra entre os dois países, já que há uma longa tradição de belicosidade quando um novo poder desafia a correlação de forças estabelecida no tabuleiro geopolítico.

Como se chegou a essa situação imprevista? Há pouco mais de quatro décadas, a China jogava apenas na segunda divisão dos poderes globais. É engraçado como as elites político-econômicas do Ocidente acreditam piamente em suas próprias histórias. Após a queda do Muro de Berlim e o colapso do bloco socialista, pensavam que a China docilmente ocuparia seu lugar como país emergente, sujeita às leis de mercado impostas pelos países dominantes. Não previam que a China primeiro os imitaria, para logo depois se subverter, usando agressivamente as dinâmicas do capitalismo, mas integrando-as ao mais estrito controle governamental.

Ao contrário do que se imaginava possível, quando a China passou a copiar os modelos ocidentais, não foi como uma postura de submissão, mas como estratégia de chegar à dominância. A audácia chinesa não se restringiu à produção de objetos manufaturados.

A China criou sua própria rede integrada de computadores. Ou seja, sua própria internet, organizada segundo seus próprios protocolos, vigiada por suas próprias estruturas e hierarquias de poder. Empresas que para nós são todo-poderosas, como Google e Facebook, simplesmente não entram no grande país asiático.

Há menos de uma década, era senso comum que a China jamais teria empresas que pudessem competir com as campeãs ocidentais, como a Apple ou a Amazon. Ledo engano, hoje os chineses não apenas são capazes de produzir dispositivos eletrônicos e redes integradas de logística e informação, iguais às do Ocidente, como conseguem produzi-las melhores e mais baratas.

A resposta dos EUA tem sido, digamos, pouco convencional. Em vez de apostar na tal “livre concorrência”, o país símbolo do capitalismo tenta bloquear a ação das empresas de ponta chinesas, como a Huawei, impondo também fortes restrições comerciais e barreiras de mercado. Impedem a todo custo que empresas norte-americanas sejam compradas por suas concorrentes chinesas.

Cá para nós, uma atitude nada condizente aos mandamentos da liberdade tão apregoada pelo liberalismo ocidental. É que nessas horas, mais do que discursos, impera o realismo. Quem de fato quer liderar, no plano global, não abre mão do controle de setores fundamentais da sua economia. Isso é coisa de países subalternos, feito o nosso, que vende docilmente suas empresas estratégicas, como a Embraer, Eletrobrás e Petrobrás.

Voltando à questão, será que uma guerra entre os Estados Unidos e a China é inevitável? Um aspecto fundamental desse provável conflito é a definição do campo de batalha. Hoje, as guerras não são travadas apenas com exércitos perfilados, com canhões e fuzis. As guerras de hoje são realizadas também por intermédio de modelos de negócio, plataformas tecnológicas e programas de computador. Enfim, não se preocupe quanto à guerra pelo futuro: ela já começou.