As mãos pequeninas e ágeis preparavam o melhor café expresso do mundo. Não porque tivesse feito curso de barista ou alguma coisa do gênero, mas porque a preparação continha carinho e sempre precedia uma boa conversa.

Minhas lembranças de Claude, uma amiga que fiz na Bélgica e morreu de Covid-19 na última semana, são todas assim: cheias de delicadeza. Sem pressa, ela se dedicava com capricho a qualquer tarefa, por mais simples que fosse.

Nos conhecemos em um cassino, onde ambas trabalhávamos como faxineira. O único horário que o local ficava fechado era das 6 às 9 horas, o que significava que tínhamos de deixá-lo limpo e organizado nesse curto espaço de tempo.

Poderia ser uma correria insana, mas com Claude era sempre agradável. Distribuíamos as tarefas e, caso não eu não executasse algo da maneira correta, ela parava e me explicava com toda paciência.

Claude tinha 55 anos, à época. Baixinha, inteligente e gentil, era mãe de duas filhas e avó de três netos. Sofrera um câncer de mama, alguns anos antes, e fora abandonada pelo marido, que não suportou o fato de a mulher perder um seio.

Casou-se e engravidou cedo. Desistira dos estudos – fazia um curso técnico em enfermagem – para dedicar-se exclusivamente à família. Quando o marido partiu, ela, sem formação nem dinheiro, viu nas faxinas seu ganha-pão.

Tinha um bom padrão de vida antes do divórcio, conhecia coisas caras e finas, mas aceitava a nova realidade com resignação e sem ressentimento. No entanto, sempre ficava fascinada ao me ouvir contar sobre as aulas e os livros do meu mestrado.

Quando soube que eu havia defendido minha dissertação e recebido nota alta da banca, vibrou mais que eu. Aproveitei a ocasião, para provocá-la: “Por que não volta a estudar? Ainda dá tempo de você conseguir um diploma!”

Aos risos, Claude me respondeu: “Minha carreira agora é como mãe e avó. Faço as faxinas para sobreviver, mas minha melhor função é cuidar da minha família”. Eu me calava, mas por dentro ficava inconformada.

A verdade é que eu achava Claude medíocre e acomodada. Não respeitava sua escolha, porque julgava que ter uma carreira profissional reconhecida era a coisa mais importante. Considerava impensável uma mulher ser feliz dentro de casa.

Com a maturidade, percebi a injustiça e a crueldade do meu julgamento. O fato é que eu queria impor a Claude meus desejos e valores, como se eles fossem universais e atendessem às necessidades de todas as pessoas.

Levei muitos anos para perceber que cada ser humano é único e, por isso, se satisfaz de formas diversas, que devem ser respeitadas. A mensagem da filha de Claude, me contando como a mãe viveu e morreu, comprova que ela estava certa.

“Mamãe teve uma parada cardíaca no segundo dia, após o diagnóstico do coronavírus. Passou somente um dia isolada. Antes de sabermos da Covid, ela esteve todo o tempo cercada por mim, por minha irmã e nossos filhos. Nos últimos anos, nos dedicamos a levá-la para conhecer todos os países que ela sonhava. Fizemos viagens lindas e temos as melhores memórias que uma família pode ter”, disse a filha.

Claude não obteve fama nem fortuna com suas faxinas, mas alcançou a maior riqueza que alguém pode acumular: o afeto. Teve o privilégio de ser cuidada por aqueles que a amavam. Na carreira que escolheu, foi muito bem-sucedida. Au revoir, ma chérie.