"No planeta deserto, bando de macacos invadiam as cidades, golfinhos surgiam nos canais de Veneza”

Houve um tempo em que as pessoas não podiam sair de casa, não podiam se tocar e tinham medo de tudo. Todos usavam máscaras e, por isso, não havia sorrisos – só olhares assustados. Barreiras impediam a entrada nas cidades e as transformavam em grandes condomínios privados. Os aviões adormeciam em solo, enfileirados e ociosos, sem ter para onde ir nem quem carregar.

Os velórios eram muito rápidos, sem abraços, com pouca gente diante de caixões lacrados. Famílias foram forçadas a se separar e o tempo parecia ter parado, sem previsão de retorno, longos dias de perguntas e dúvidas. Era impossível fazer planos, porque as certezas foram destruídas, desmoronaram diante da explosão de perguntas.

Os mais importantes pontos turísticos do mundo conheciam, pela primeira vez, a experiência da solidão. O medo assumia o lugar da multidão. No planeta deserto, bando de macacos invadiam as cidades, golfinhos surgiam nos canais de Veneza, tartarugas se refastelavam na Baía da Guanabara, a poluição arrefecia e permitia enxergar montanhas eternamente cobertas pela fumaça. O mundo agora pertencia aos animais – aos poucos eles retomavam os oceanos, as ruas e as praias como em uma silenciosa revolução dos bichos.

Tudo o que parecia inimaginável, impensável, absurdo acontecia a olhos vistos, no mundo inteiro, como se de repente a Terra passasse a girar ao contrário. Quem poderia imaginar?

Algum tempo depois, quando o vírus já havia perdido sua força e tudo parecia voltar aos sobressaltos habituais, à rotina do velho normal de disputas e misérias, novos fantasmas surgiram para assombrar o cotidiano. No começo, a impressão era de que tudo seria passageiro, uma “secazinha” sem maiores efeitos. Veio a negação, dizia-se que era exagero da imprensa, os grupos de WhatsApp acusavam interesses escusos, teorias da conspiração ganhavam força, informações falsas circulavam com velocidade.

Mas a realidade se impunha a negacionismos. Os rios estavam cada vez mais estéreis, as nascentes desapareciam e as torneiras alongavam os períodos de silêncios e vazios – um oco de alumínio mudo e sem vida. Longos dias de racionamento e mudanças na rotina se seguiam, um depois do outro. A água que jorrava tão farta no tempo das máscaras agora era motivo de disputa. Brigava-se por ela, matava-se por ela, morria-se por ela.

Já era possível abraçar, tocar, mostrar todo o rosto sem proteção e medo, mas nascia, com vigor assombroso, uma nova distopia. Quem poderia imaginar?

Rios fartos invadidos pela areia se tornavam cada vez mais rasos e espraiados. Cachoeiras minguavam, lagos se transformavam em deserto e as multidões cobravam respostas: como deixamos isso acontecer, por que não nos preparamos?

Mas, afinal, quem poderia imaginar?

Os estudos sobre mudanças climáticas eram ridicularizados; as previsões soavam excessivamente catastróficas; os alertas ganhavam conotação ideológica; os países se recusavam a cumprir metas; o desastre parecia estar longe demais, tão distante quanto a China.

E porque ninguém fez nada, o desastre bateu à porta.