Todos os dias no final da tarde uma voz potente e doce ganha eco entre os moradores de um prédio na Rua T-38, no Setor Bueno. O som vem da varanda do 10º andar, onde mora Valentina Ávila, de 6 anos. Em cima de uma cadeira, a pequena solta o vozeirão que conquistou os vizinhos desde o início do isolamento social por conta do novo coronavírus. A trilha sonora é um trecho da música Minha Intuição, versão de Into the Unknown, sucesso do filme Frozen 2, da Disney, cantada pela protagonista da animação, a princesa Elsa.

“Foi um jeito que a minha filha arrumou para consolar as pessoas porque ela não gosta de ver ninguém triste. Ela é muito alto astral”, conta a mãe, a educadora física Tatiana Ávila, 38 anos. Em tempos de pandemia, atitudes como a de Valentina vêm se multiplicando – a moda começou na Itália, quando cantorias fizeram sucesso nas redes sociais. Para a enorme parcela da população mundial que está trancada dentro de apartamentos, o contato social agora ganhou janelas e varandas, com palmas, acenos, aulas de ginástica e música.

Fã de Frozen, Valentina pediu para a mãe que lhe deixasse cantar. No início, o pai foi contra com medo de ela incomodar. “Pedi até para ela parar, mas o pessoal gostou”, recorda-se o servidor público Gustavo Ávila, 39. Em menos de duas semanas, a conexão estava afinada com os vizinhos. Quando ela fazia “ah, ah, ah, ah, ah”, assim como a princesa Elsa cantarola no filme, os moradores devolviam com sonoro “eh, eh, eh, eh”, “ih, ih, ih, ih”, “oh, oh, oh, oh” e “uh, uh, uh, uh”. “Ela está achando o máximo toda essa interação”, comemora Tatiana.

Valentina não demorou muito a cair nas graças dos vizinhos. Alegre, carismática e cheia de energia, logo no início, ainda sem interação com os moradores, ela falou bem alto que era o seu aniversário e que gostaria de conversar. A atitude imediatamente quebrou o gelo e, a partir daquele momento, se estabeleceu uma rotina de diálogos com os moradores todos os dias, sempre às 17h30 e às 20 horas, durante pelo menos 15 minutos de conversa e de música. “Achava esquisito todo aquele silêncio no prédio. Quando o primeiro respondeu, achei legal, fiquei feliz e fiz amigos”, conta a criança, que sonha em se tornar uma jornalista no futuro.

Interação

A ideia de se comunicar com os vizinhos com o sucesso de Frozen faz todo o sentido. No filme, a canção marca uma passagem importante para Elsa, que escuta uma voz misteriosa que parece chamá-la para explorar o desconhecido. Em seguida, a princesa inicia uma nova jornada. Assim também foi para Valentina que, sem poder sair de casa, encontrou um jeito de se sentir mais próxima dos outros. “A minha filha foi enjoando da rotina, tinha esgotado as brincadeiras e ela queria se comunicar com outras pessoas”, lembra a mãe.

Uma das primeiras a responder à pequena Valentina foi a servidora pública Maria Isabel Porto da Silva, de 52 anos, que mora em um prédio ao lado de onde vem a cantoria. “Ouvi essa criança logo na primeira semana de quarentena e ela falava apenas ‘ah, ah, ah, ah’, era muito forte, mas eu não conseguia ver quem estava fazendo. Um dia, devolvi com ‘eh, eh, eh, eh’ e a gente começou a conversar. Acho fantástico isso que ela faz e virou uma tradição aqui. A gente já fica esperando por ela todos os dias pela manhã, tarde e noite”, destaca.

O que mais chamou a atenção dos vizinhos, além da espontaneidade, foi a afinação de Valentina. A música vem de berço na família. Os avós paternos sempre cantaram, o pai era o vocalista da banda de pop rock goiana Pitwawa, formada no final da década de 1990 e que hoje toca apenas em ocasiões esporádicas, como em casamentos, e o tio é o cantor sertanejo Guilherme Talma. “A minha filha tem essa coisa artística, mas ela fala que ela quer ser repórter. Ela já gravou vídeo entrevistando todo mundo aqui em casa”, conta Tatiana.