Você toparia ficar em uma área isolada, sem conforto, tecnologia, itens básicos de sobrevivência, alimentar-se com olho de cabra cru ou uma apetitosa porção de larvas vivas? Além desses desafios, soma-se ser vigiado por câmeras de televisão 24 horas por dia. Foi o que viveram dois goianos vencedores do primeiro reality show de aventura da TV brasileira, No Limite. Leo Rassi e Luciana Araújo trouxeram os títulos nas edições de 2001 e 2009, respectivamente.  

Hoje com 43 anos, Leo Rassi venceu a segunda temporada do programa, gravada em 2001, na Chapada dos Guimarães (MT). Ele faturou R$ 100 mil e um carro após uma prova marcante. Ele precisou contar 1 minuto e 23 segundos em silêncio e de olhos vendados. Leo e sua concorrente, Cristina, só souberam o resultado ao vivo nos Estúdios Globo. Ao POPULAR, Leo contou que a participação no programa foi uma surpresa, ele foi abordado por uma produtora do programa enquanto bebia com amigos em um bar em Goiânia. Topou participar da seleção e foi aprovado. A seguir um bate-papo com o campeão de 20 anos atrás.

 

O que foi mais difícil para você, física e psicologicamente?

Sem sombra de dúvidas, o maior desafio físico é a fome. A gente não imagina o quanto isso é importante. A falta de alimentação te destrói física e mentalmente. Enfraquece sua cognição. Psicologicamente, há o desafio de manter coesão com tudo que você faz. Se a gente falasse de carro, por exemplo, virava caminhão, que lembrava açougue, que lembrava carne e churrasco. Qualquer assunto terminava em comida. Isso era muito difícil. Às vezes a pessoa pensa: “Ah, o cara tem um físico maior”. Quantos mais músculos, mais energia você precisa e mais pesado será. E não adianta pensar que ‘No Limite’ é só você. Você precisa das pessoas para conseguir estar lá mais um dia. Porque todos os dias você pensa em desistir. O maior desafio é persistir.

 

Qual foi o momento mais marcante?

Não consigo dizer que tenho um momento mais marcante. As lembranças são várias. Lembro de uma situação de não dar conta de fazer nada. Com sete dias de programa, a gente foi subir um morro. Lembro claramente que a gente não tinha quase nenhuma energia e cada vez que você dava um passo, tinha que esperar dois minutos pra dar outro. Lembro que olhava e pensava “gente, não dou conta de dar o próximo passo, não dou conta de pegar a minha perna e fazê-la subir mais um degrau, tamanha é a exaustão”. Essas provas te desafiavam e tiravam de você energia de onde já não tinha.

 

Como foram as provas com comidas exóticas para você?

Para a gente, a prova não é tão chocante quanto para o público. Quem está vendo está saciado, tranquilo, está numa boa e aí fica com nojo. Lá você quer comer tudo que tiver. Óbvio que às vezes vai ficar com nojo. No meu teve larva viva e gafanhoto. Eu não consegui passar nessa prova, a minha era cabeça de galinha com pequi, caldo de quiabo, um gafanhoto com farofa e uma larva viva. Eu saí no gafanhoto com farofa. Não foi porque estava ruim, mas porque eu mastigava o gafanhoto e ele virava tipo um bagaço de cana na boca. Não consegui engolir. É lógico que deve ter situações mais complexas, mas para mim, isso está completamente relacionado ao quanto você precisa de comida.

 

Como foi seu retorno a Goiás depois da vitória?

Eu não tinha visto a primeira edição do programa, então eu não sabia o que acontecia. Um monte de amigos pegou um ônibus e foi para o Rio. Depois, quando cheguei a Goiânia, Corpo de Bombeiros e um monte de gente me receberam no aeroporto. Depois carreata. Enfim, é uma coisa que foi surreal para mim. Depois fiquei sabendo que a TV Anhanguera mostrou que na final todo mundo aqui em Goiânia assistiu, que as pessoas gritavam dentro dos apartamentos. Boate parou para passar a final. Coisas que eu não esperava e não imaginava. Isso me deixou muito grato e responsável por levar o nome de Goiás. A gente nunca tinha ganhado um prêmio nesse sentido. A gente era muito conhecido como “só sertanejo”. Pô, temos coisas bacanas além do sertanejo e foi legal por causa disso. Eu não sou um cara da roça, eu sou nerd, eu sou urbano e desengonçado. Foi legal levar que a gente também tinha outros tipos de pessoas aqui.

 

A que você atribui a sua vitória?

Tenho uma fé muito grande. Em Deus, em tudo. Sou cristão e eu acredito no poder Dele dentro da gente. Para mim, Ele me deu a força espiritual que eu precisava para vencer e continuar. Desde a hora de como fui selecionado. Eu precisava daquele prêmio. Não estava preocupado em ser famoso, eu queria a grana. Não tinha a mínima noção e preocupação em seguir na carreira artística. Então, para mim foi ter essa fé muito forte e entender que aquilo era um jogo social, que eu precisava de aliados.

 

O que passava pela sua cabeça enquanto você contava 1 minuto e 23 segundos na prova final?

Foi muito difícil contar. Você pensa: “Um – nossa, eu nem acredito –, dois – nossa, será que isso vai acabar? –, três, quatro...”. Eu sou TDHA (sigla para portador de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade), então pensa que não é um negócio muito fácil... Fiquei imaginando e contando os segundos rolando em um placar para tentar ir visualizando na minha cabeça. Na parte todinha eu ficava pensando: “cara, isso vai acabar daqui 1min e 23s e eu vou poder comer, dormir em uma cama, acabou isso tudo”.

 

Você achava que ganharia o programa?

Em momento nenhum do programa fui pensando em pensando que ia ganhar. Eu tinha uma grande convicção. Eu tinha certeza de duas coisas que queria fazer, uma era não ser o primeiro que ia sair do programa para não ficar mal. E o segundo era conseguir ficar mais um dia. Em momento nenhum ficava sonhando com o prêmio. Eu ficava sonhando com a próxima etapa e continuar mais um dia, em mais uma semana. Toda minha mente era pra isso.

 

O que você daria de dica para os novos participantes?

Eu acho graça. Nada contra os ex-BBBs que entraram, eles são gente como a gente, só que assim, é muito engraçado ver todo mundo sofrendo por causa de comida, ou porque está comendo fígado ou rabada. Os caras não imaginam o que está esperando por eles. A maior dica que eu posso dar para eles é entender que eles não podem esquecer que aquilo é um jogo e eles precisam de um ao outro e que a fome vai despertar o estresse máximo de cada um. Não é igual ao Big Brother que você está em uma casa fechada, você está em um lugar somente com aquelas pessoas, inóspito e com muita fome.

 

Você participaria de outro reality?

Eu não me vejo participando de um Big Brother, mas eu participaria com certeza do No Limite de novo. Porque é um negócio de superação, que você tem que se reinventar e não sabe o que pode acontecer. A dinâmica é muito grande dentro do jogo, em que os desafios estão ali com você. Você tem que se superar de um jeito físico e mental. Foi graças ao programa que eu tive condições financeiras de comprar casa para os meus pais, construir uma vida empreendendo, aprendendo e errando. Me formei em Ciência da Computação, em Direito e me pós-graduei. Consegui fazer tudo o que queria na área da educação, até mais do que imaginava. O programa foi muito importante na minha vida.