No início dos anos 1990, a professora Maria Margarida Machado fazia um trabalho de extensão na Universidade de Brasília e, num certo dia, Paulo Freire foi à instituição. “Eu o conheci e o que chamava a atenção era a coerência que havia entre o que ele escreveu e como ele se portava. Uma sintonia entre o discurso e a prática.” Sandra Couto, do Centro de Referência Paulo Freire, confirma essa imagem. “A principal marca dele para mim é a coerência. Eu tive a oportunidade de conviver com ele por um ano, em reuniões, em projetos. Ele fazia exatamente o que propunha em seus estudos.”Uma coerência que deve ser compreendida e analisada diante de sua obra, não do que falam dela, muitas vezes de forma imprecisa. “Não é fácil ler Paulo Freire. Ele é profundo e dialoga com muitos autores e correntes”, lembra Maria Margarida, da UFG. “Os referenciais freirianos dialogam com o pedagogo Frantz Fanon, que trabalha questões ligadas ao colonialismo, cujo livro principal é Os Condenados da Terra. Ele dialoga com os marxistas, mas também com as comunidades eclesiais de base da Igreja Católica, dentro do espectro da Teologia da Libertação. São ensinamentos que passam pela Filosofia, pela História.”Identificar essa coerência só é possível quando as dinâmicas do educador tornam-se familiares. “Parte das pessoas se referenciam em críticas que buscam refutar o pensamento de Paulo Freire sem nenhuma plausibilidade científica. Outra parte, que pode até ter lido, não buscou compreender os pressupostos metodológicos e teóricos que contribuíram na construção do pensamento freiriano. E uma terceira parte pode até ter estudado, mas se referencia, intencionalmente, em uma perspectiva política e social que se opõe ao que ele representa enquanto pensamento social de libertação”, alega o professor Aldimar Jacinto.“Paulo Freire também é muito influente em outras áreas que não a da Educação”, sublinha Sandra Couto. “Como seus métodos priorizam a relação entre as pessoas, pregando o diálogo entre os sujeitos, ele tem sido não exatamente usado, mas debatido em campos de conhecimento diferentes, como a Medicina e o Direito.” Também nos estudos da Comunicação, o pedagogo é considerado um dos nomes de maior relevância em toda a América Latina. “Sem dúvida, ele teve grande contribuição na construção do pensamento educacional brasileiro, latino-americano em todo o mundo”, constata Aldimar.