Em 2006, no momento em que o Festival Internacional de Cinema e Meio Ambiente (Fica) completava a sua oitava edição e exibia na cerimônia de abertura o longa Terra em Transe, de Glauber Rocha, na presença dos três companheiros do diretor, Eduardo Escorel, Dib Lufti e Zuenir Ventura, o cineasta Jarleo Barbosa, na época aos 20 anos, começava a sua trajetória na produção cinematográfica. Egresso da primeira turma da graduação em Audiovisual – hoje Cinema e Vídeo – na Universidade Estadual de Goiás (UEG), o anapolino ainda não sabia ao certo por ond e havia se embrenhado.Passados quatro anos de aprendizado teórico e prático, quando terminou o curso, Barbosa já acumulava o feito de curtas, como o filme-foguete Julie, Agosto, Setembro, e, junto às amigas Lidiana Reis, Larissa e Ludielma Laurentino, fundaram a produtora Panaceia Filmes. “Sou fruto desse crescimento do cinema em Goiás porque eu me formei no primeiro curso de Audiovisual do Estado, além de ter visto, junto à minha produtora, o surgimento das leis de incentivo, municipais, estaduais e federais. Existe lugar para escoar os produtos realizados, como os festivais, alguns deles no Estado, outros espalhados pelo País”, revela o diretor.Agora, aos 31 anos, Jarleo espera sair do forno o seu primeiro longa-metragem, Hotel Mundial, que foi parar inclusive no Festival de Cannes do ano passado, num programa extensivo para jovens produtores que ambicionam a cena internacional. O realizador faz parte de uma geração de feitores de cinema que integram à cena há pouco mais de 10 anos e que acompanharam, de certo modo, o estardalhaço da comunicação e artes na era digital e do boom de cursos profissionalizantes. Muito além disso, viu nascer mostras e festivais em todo o Estado, algumas mais abertas, outras específicas, e o florescimento dos subsídios públicos para financiamento de projetos audiovisuais.Da mesma turma de faculdade saiu também o realizador Benedito Ferreira, 28, que disputa a Mostra Competitiva do Fica 2017 com a obra Algo do Que Fica, sobre os 30 anos do acidente do césio 137 em Goiânia. Mestrando em Arte e Cultura Visual pela Faculdade de Artes Visuais (FAV), da UFG, o diretor já havia ganhado o prêmio da Mostra ABD Cine Goiás, em 2015, com o curta O Dia Secreto. Numa temporada em Paris, tratou de pegar uma câmera e gravou a história de um brasileiro cego pelas ruas da cidade. Em outra viagem, dessa vez em Buenos Aires, registrou conversas intuitivas com um amigo. Tudo isso agora se torna projeto de filme para os próximos meses.“Descobri um novo cinema na universidade. Esse despertar culminou no desejo de produzir filmes, de experimentar um set. Quando essa vontade de produzir mais, de conhecer outras maneiras de realizar novos filmes, me mudei para São Paulo. Percebi que voltaria para Goiânia para que meu trabalho flertasse com essa regionalização. O jeito como tenho pensado meus filmes dialoga com minha experiência de vida em Goiânia. Meus filmes querem falar sobre isso”, diz Ferreira.Mais janelasSe há algum tempo existia apenas festivais como o Fica, na cidade de Goiás, a Goiânia Mostra Curtas, específica para o curta-metragem e que em outubro comemora 17 anos, o aqui jaz FestCine, ou a queridinha Mostra Trash de Cinema Fantástico, hoje existem inúmeras janelas de exibição audiovisual espalhadas pelo Estado. Do Festival de Cinema de Anápolis, até o Fronteira – Festival Internacional do Filme Documentário e Experimental (FFF), inúmeras são as mostras realizadas por profissionais que entenderam que, para escoar produção, é preciso que se tenha lugares para se apresentar as realizações.Desde temas representativos do audiovisual, como gênero e sexualidade, no Festival Internacional de Diversidade Sexual (Digo), até outros muito específicos para aprendizado, como o Lanterna Mágica – Festival Internacional de Cinema de Animação, e a Bienal de Cinema Sonoro (BIS), as janelas cresceram nos últimos 10 anos, fruto de um arrojado e extenso trabalho sob labuta de jovens realizadores. A pesquisadora Fabiana Assis, por exemplo, tratou de criar o Pirenópolis Doc – Festival de Documentário Brasileiro, como janela permanente para se pensar e discutir documentário, que ela estuda em mestrado na UFG.“Minha jornada em Goiás começa em 2008 fazendo pesquisas, roteiros e produção para documentários e alguns filmes de ficção até que crio a minha própria produtora, a Violeta Filmes, e passo a desenvolver meus próprios projetos, sempre ligados aos incentivos públicos do Estado e do município”, revela Fabiana, que este ano estreou nas projeções do Fica com o filme Real Conquista, que fala sobre a desocupação do bairro na capital e concorre na Mostra Competitiva e na Mostra ABD Goiás. (Da cidade de Goiás. A reportagem viajou a convite do Fica)-Imagem (Image_1.1298422)-Imagem (Image_1.1298424)